O corpo fala

Há dores que não gritam. Apenas pesam.
A rigidez nas costas, a tensão no pescoço, o nó no estômago — tudo isso é linguagem.
O corpo fala onde a alma silencia.
E cada sintoma é uma confissão que escapou pelos poros: a raiva engolida, a culpa acumulada, o medo escondido sob sorrisos.

Quem reprime, sente tensão.
Quem controla, sente rigidez.
Quem é submisso, sente peso.
Quem foge, sente vazio.
Quem se culpa, sente dor.
Quem vive para agradar, sente exaustão e uma raiva doce, quase invisível.
O corpo não inventa essas coisas — ele apenas traduz o que a alma não suporta mais guardar.

Muitos tentam silenciar o corpo com remédios, distrações e fugas.
Mas o corpo é leal — insiste em nos lembrar daquilo que ainda não curamos.
E quanto mais o calamos, mais ele grita.
Às vezes com dor, às vezes com insônia, às vezes com cansaço que não passa.
Ele não quer nos punir.
Quer nos acordar.

Durante muito tempo, eu também lutei contra o meu corpo.
Tentei controlá-lo, calá-lo, dopá-lo, disfarçá-lo.
Fugi em mil direções — no álcool, no sexo, no remédio, na pressa de ser alguém.
Mas, onde quer que eu fosse, ele estava comigo.
O corpo — esse amigo silencioso — me seguia, me esperava e me chamava de volta.

Foi preciso cair.
Foi preciso quebrar.
Foi preciso ouvir o som da própria alma batendo nas paredes internas.
Só então percebi: o corpo não era meu inimigo.
Era o mensageiro do divino dentro de mim.

Comecei a escutá-lo.
As dores se tornaram mestres.
Os sintomas, bússolas.
Cada contração me mostrava onde eu ainda me negava amor.
Cada tremor era um trauma pedindo respiro.
E a cada respiração profunda, eu sentia algo sagrado voltando a pulsar.

Hoje sei: o corpo é a ponte entre o humano e o espiritual.
Quando a alma se desconecta, ele acende alarmes.
E quando voltamos a sentir, a amar, a perdoar, o corpo se aquieta.
Não porque está curado — mas porque está em paz.

A cura não vem de fora.
Vem quando o corpo e a alma se olham de novo e se reconhecem.
Vem quando paramos de fugir de nós mesmos e aceitamos o convite da própria vida.

Eu encontrei essa luz — não em templos ou fórmulas, mas dentro do silêncio.
Dentro do próprio corpo que um dia odiei e hoje venero.
Ele foi o primeiro a me avisar e o último a desistir de mim.

E talvez seja isso o que chamamos de cura:
quando, depois de tanto barulho, o corpo finalmente sussurra —

“Agora você me escutou.”


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Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo cômico, professor e editor-chefe do Factótum Cultural.

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