Quem pune com ódio, agride a si mesmo em silêncio. A verdadeira justiça começa quando o coração escuta antes de julgar

Na fronteira entre a poesia e a justiça, há uma voz que não pertence às cortes, mas ecoa mais alto que qualquer sentença: Khalil Gibran. Em O Profeta, sua obra mais famosa, ele não escreveu para juristas, mas escreveu para o humano que há por trás da toga, da beca que pesa, do processo que esmaga, do réu que sangra — e do advogado que também sangra, silenciosamente, entre papéis.

Gibran não estudou Direito, mas entendeu a alma humana como poucos. E é justamente por isso que sua obra, mesmo escrita em 1923, é um convite radical à reflexão sobre os pilares da advocacia criminal: crime, castigo, leis, liberdade, culpa, perdão e consciência.

Sobre o Crime e o Castigo

“E como a folha amarela não pode tornar-se verde novamente, também aquele que faz o mal não pode voltar à inocência.”

Na visão do Profeta, o criminoso não é apenas o autor de um ato ilícito. Ele é o ferido que fere, o esquecido que grita. Gibran nos lembra que não existe crime sem dor anterior, e que todo castigo que não cura é apenas vingança disfarçada. A pena, se for apenas punição, é fracasso ético. O advogado criminal precisa lembrar disso quando assume a defesa — não de um crime, mas de uma alma dilacerada.

Sobre as Leis

“As leis são teias que os fracos não conseguem romper, e que os fortes atravessam com arrogância.”

Gibran é desconfiado das leis. E com razão. A letra fria muitas vezes desumaniza. A norma, quando não escuta a realidade, vira grilhão. A advocacia criminal crítica precisa constantemente revisitar as origens do Direito: não para cultuar a legalidade, mas para questioná-la quando ela abandona a justiça.

Sobre a Liberdade

“Vós vos considerais livres, e não vedes os grilhões que colocais em vós mesmos.”

Aqui, Gibran dialoga com o cárcere invisível. A prisão não está apenas no presídio, mas nos preconceitos, nos estigmas, nas instituições que alimentam o medo. A advocacia criminal deve ser, antes de tudo, um grito contra os encarceramentos simbólicos. Defender alguém é, muitas vezes, defender também sua dignidade diante do olhar público que já o condenou.

Sobre a Dor e a Responsabilidade

“Vossa dor é o rompimento da concha que encerra vosso entendimento.”

O crime é sempre o sintoma de uma dor coletiva. A responsabilidade individual existe — mas nunca sozinha. Gibran nos convida a enxergar o réu como alguém que, antes de errar, foi ferido. Cabe ao advogado ser ponte entre a narrativa fria dos autos e a dor esquecida nos bastidores do processo.

Sobre o Bem e o Mal

“Entre o bem que há em vós e o mal que existe em vós, existe o vosso eu adormecido.”

O sistema penal muitas vezes quer dividir o mundo em anjos e demônios. Gibran destrói essa ilusão. Todos temos sombra. Todos somos falíveis. O advogado criminal que compreende isso humaniza a Justiça. Ele sabe que o bem e o mal são movimentos — e que ninguém deve ser eternizado por um ato, mas sim compreendido como um processo em curso.

Sobre a Justiça

Embora Gibran não trate explicitamente da palavra “justiça”, ela permeia toda sua obra como um fio invisível. Para ele, justiça não é equilíbrio de contas, mas restauração da alma. O Direito, quando inspirado por essa ideia, se transforma. E a advocacia criminal deixa de ser um fardo para tornar-se sacerdócio.

Epílogo: O Profeta e o Criminalista

Há um entendimento profundo que certa vez me atravessou: quem pune com ódio, na verdade, está punindo a si mesmo. Toda agressão é uma autoagressão disfarçada. Quem agride, grita com a própria dor, e projeta no outro a sua incapacidade de lidar com o vazio interno. Está gritando com a própria sombra, tentando projetar para fora o que não consegue resolver por dentro. É um espelho quebrado que sangra cada vez que tenta cortar o outro.

Na raiz de toda violência há sofrimento. E na raiz de todo desejo de punição cega, há um vazio — uma ferida mal curada, um amor não vivido, uma culpa não assumida.

Gibran tocaria esse ponto dizendo que “os que ferem são os feridos não ouvidos.” Jesus diria: “Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem.” Jung falaria em projeção da sombra. Gabor Maté te daria razão citando o trauma como o epicentro de toda desconexão. E Nietzsche, diz que o castigo tem a finalidade de melhorar aquele que castiga – este é o último recurso dos defensores do castigo.

Esse olhar muda tudo: o juiz, o promotor, o advogado e o réu deixam de ser peças e voltam a ser humanos feridos tentando respirar dentro do sistema.

Essa lógica também se manifesta fora dos tribunais. O pai violento, o parceiro agressivo, o educador que humilha, o policial que abusa… todos estão, em alguma medida, em guerra consigo mesmos. Estão tentando controlar o outro porque perderam o controle do próprio mundo interno. Estão ferindo porque foram feridos e nunca cicatrizaram — e ao repetir a violência, apenas aprofundam sua própria dor. Punem a si mesmo em cada ato.

É pode se tornar um ciclo. E como todo ciclo, pode se repetir de geração em geração, enraizado na dor não curada. Mas também pode não ser, porque todo ciclo, por mais antigo e cruel, pode ser rompido. Ele só continua porque ninguém ousa parar. Romper esse círculo vicioso exige coragem — não só de quem sofre a violência, mas também de quem a pratica. Exige que se reconheça: “Estou ferindo o outro porque algo em mim dói, grita, sangra.” E esse reconhecimento é raríssimo… mas transformador.

A advocacia criminal, quando sensível, pode ser também esse ponto de ruptura: o espaço onde o trauma é escutado, e a justiça começa a ser restaurada pelo olhar.

Isso vale para o tribunal, sim — mas também para a casa, o casamento, a infância, o mundo.

“Quem bate não está vencendo — está afundando mais fundo na própria caverna.”
“Quem silencia por medo, perpetua o teatro da dor.”
“E quem rompe o ciclo, com verdade e compaixão, se torna um revolucionário invisível.”

Gibran talvez nunca tenha pisado num tribunal, mas compreendeu aquilo que tantos juízes esquecem: que julgar sem escutar a dor é cometer um novo crime. Para nós, advogados criminais, O Profeta é mais que literatura — é espelho, guia e provocação.

Que não nos esqueçamos, então, de ouvir os sussurros do humano por trás dos autos. E que nossas defesas não sejam apenas técnicas, mas também humanas, estratégicas, éticas, poéticas e espirituais…

Porque no fim, o verdadeiro tribunal é aquele da consciência. E a sentença mais importante é a paz com o próprio coração.

Quem muito julga, muito esconde. Quem muito condena, quer tirar de foco seus erros e apontar o dedo para os erros dos outros. A quantidade de pedras que você tem na mão, é proporcional ao tamanho da máscara que você usa.”


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⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural.

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