Por Livros & Grimórios

Uma história sobre abandono, relacionamentos tóxicos e a força de quem sobrevive em silêncio
Algumas histórias chegam até nós de forma discreta, sem alarde, mas deixam marcas profundas. Um Lugar Bem Longe Daqui (Where the Crawdads Sing) é uma dessas. Assisti ao filme pela Netflix e, ao final, fiquei em silêncio por um tempo, absorvendo o impacto de tudo aquilo. Depois descobri que o filme é baseado no best-seller de Delia Owens, que um dia pretendo ler. Há obras que pedem para ser visitadas duas vezes: uma com os olhos, outra com a alma.
A protagonista, Kya, é uma menina abandonada por todos: pela mãe, pelos irmãos, pelo pai alcoólatra e violento — e, mais tarde, pela própria sociedade. Cresce sozinha nos pântanos da Carolina do Norte e é conhecida na cidade como “a menina do brejo”. Como se não fosse gente. Como se bastasse morar longe para deixar de ser humana. A história poderia muito bem ser real. Aliás, provavelmente é — em várias formas, com vários nomes.
Kya não teve infância. Não teve escola, nem acolhimento. Sobreviveu como pôde, criando vínculos com a natureza, observando os animais, desenhando pássaros, aprendendo a linguagem do vento e da lama. O brejo virou casa, mãe e refúgio. E é impossível não pensar em quantas “Kyas” existem por aí — crianças e adolescentes que crescem à margem de tudo, silenciadas pela dor, julgadas por sua solidão.
O filme é belo, mas não no sentido estético apenas. É belo porque é verdadeiro. E é doloroso. Toca em temas como abandono, trauma, violência doméstica, solidão feminina, preconceito de classe, isolamento, superação, resiliência, justiça falha e, principalmente, as consequências de crescer dentro de um ciclo de violência.
Kya vive em um ambiente violento. O pai é agressivo e alcoólatra,o que leva a mãe a fugir, deixando os filhos para trás. Um a um, seus irmãos também vão embora para escapar do abuso. Por fim, Kya é abandonada pelo próprio pai, que desaparece de vez. Ela fica sozinha, ainda criança, vivendo apenas com o que aprende da natureza e da terra.
Kya sobrevive coletando mariscos, pescando e vendendo o que consegue. Um casal afro-americano da região, Jumpin’ e Mabel, passa a ajudá-la com roupas e suprimentos. Ao mesmo tempo, Kya desenvolve uma conexão profunda com o pântano: ela observa, desenha, classifica animais e plantas, como uma bióloga autodidata. A natureza torna-se sua família e refúgio.
Esse histórico de abandono e violência afeta profundamente seus vínculos afetivos. Na adolescência, ela conhece Tate Walker, um jovem sensível que a ensina a ler e escrever. Eles vivem um romance puro, mas ele a abandona ao ir para a faculdade, prometendo voltar – mas não volta como ela esperava. Mais tarde, ela se envolve com Chase Andrews, um rapaz popular da cidade. A relação, inicialmente carinhosa, se torna abusiva e violenta. Chase estupra Kya quando ela tenta se afastar dele. Ela consegue escapar, mas o trauma a marca profundamente. A partir desse momento, ela passa a evitar contato humano, mantendo sua reclusão. Observa-se que, é assim que o ciclo geralmente se repete: quem nunca foi amado direito, dificilmente saberá distinguir o que é amor de verdade.
O filme mostra como é fácil romantizar relações que, na verdade, são tóxicas e destrutivas. Kya quer ser amada. E por isso tolera mentiras, promessas quebradas, abusos disfarçados de paixão. Sua dor é real. E o retrato do relacionamento que ela vive com Chase, o jovem da cidade, é um alerta sobre quantas mulheres crescem vulneráveis emocionalmente e acabam presas a relações de dominação, controle e violência.
Assistir a esse filme me fez pensar em como a sociedade lida com quem é diferente. Em como o julgamento vem antes da escuta. Em como a exclusão se disfarça de normalidade. Kya é acusada de um crime, mas desde cedo já era tratada como culpada — por ser pobre, por viver sozinha, por não se vestir como os outros. E o tribunal é apenas a formalização de um veredito que a cidade já havia dado anos antes. Afinal: seria Kya culpada ou inocente?
Outro ponto que me marcou foi a forma como o filme retrata o vínculo com a natureza. Em vez de ser um cenário, o brejo é um personagem. Um espelho. Um útero. Em tempos de tanto barulho e excesso, há algo profundamente libertador na relação que Kya constrói com o silêncio e com o mundo natural. Talvez porque ela tenha aprendido que onde há humanos, há risco. E que os pássaros, ao menos, não mentem.
O desfecho do filme e do livro traz uma reviravolta. Após anos de mistério, já idosa e casada com Tate, Kya morre pacificamente. Somente após sua morte descobre-se que ela realmente matou Chase, mas nunca foi descoberta. O crime, para muitos, foi uma forma de autodefesa silenciosa, um ato de justiça poética diante da violência que sofreu a vida inteira. Kya matou. Mas quantos a mataram antes?
O final da história — e aqui é impossível fugir do spoiler – diz muito sobre o que é justiça — e o que é sobrevivência. Há decisões que não cabem em manuais jurídicos. Há vidas que não seguem roteiros convencionais. E há pessoas que, mesmo depois de tanto sofrimento, conseguem criar beleza. Escrever livros. Deixar legado.
Um Lugar Bem Longe Daqui não é só um bom filme. É uma história necessária. Para quem já se sentiu deslocado. Para quem precisou ser forte antes da hora. Para quem sabe que nem todo trauma vira discurso — e que algumas cicatrizes são invisíveis.
Recomendo. E recomendo mais ainda que se assista com o coração aberto. Porque talvez você descubra que, no fundo, também cresceu tentando se encaixar em um mundo que nunca fez questão de te acolher.
🎬 Sinopse e links
Kya Clark é uma jovem misteriosa que sobreviveu sozinha por anos nos pântanos da Carolina do Norte. Rejeitada pela sociedade, ela se vê envolvida em um assassinato, e sua história de vida se entrelaça com as investigações do crime. Um drama poético sobre abandono, julgamento e resistência feminina.
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