Por Adriano Nicolau da Silva

Resumo: Este artigo visa destacar a relevância da terapia cognitivo comportamental no tratamento do transtorno dependente. Esta terapia psicológica tem mostrado resultados positivos para pacientes com comportamentos de submissão e medo de separação, resultando em comportamentos exagerados de dependência. O texto apresenta um estudo bibliográfico acerca da efetividade da TCC e das técnicas empregadas, fundamentado em pesquisas recentes.
Palavras-chave: Transtorno da personalidade dependente; Psicoterapia cognitivo-comportamental; Eficácia.
The Role of Cognitive-Behavioral Therapy in the Treatment of Dependent Personality Disorder: Efficacy and methods used
Summary: This article aims to highlight the relevance of cognitive behavioral therapy in the treatment of dependent disorder. This psychological therapy has shown positive results for patients with submissive behaviors and fear of separation, resulting in exaggerated addictive behaviors. This text presents a bibliographic study on the effectiveness of CBT and the techniques used, based on recent research.
Keywords: Dependent personality disorder; Cognitive behavioral psychotherapy; Effectiveness.
1. Introdução:
O Transtorno da Personalidade Dependente é um dos diversos transtornos de personalidade descritos no DSM-5. Em geral, indivíduos com transtorno de personalidade dependente apresentam dificuldades para tomar decisões, têm medo de desagradar a outros e podem se sentir incapazes de cuidar de si (American Psychiatric Association, 2013). A TCC, desenvolvida por Aaron T. Beck, nos anos 1960, tem como foco principal identificar e modificar padrões de pensamento disfuncionais e comportamentos problemáticos (Beck, 1976).
Segundo o DSM-5 do Transtorno da Personalidade Dependente, os seguintes comportamentos ficam em evidência no paciente. A necessidade excessiva de ser cuidado, que resulta em um comportamento submisso, além de medos de separação, é uma característica que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos: dificuldade em tomar decisões cotidianas sem uma quantidade excessiva de sugestões e suporte por parte de outros indivíduos; a necessidade de que os outros assumam a responsabilidade pelas principais áreas de sua vida; dificuldade em expressar, devido ao medo de perder apoio ou aprovação; dificuldade em iniciar projetos ou realizar tarefas por conta própria devido à falta de confiança em seu julgamento ou capacidade; falta de motivação ou energia; faz de tudo para obter carinho e apoio, chegando a oferecer-se para fazer coisas desagradáveis; sente desconforto ou desamparo quando só, devido a medo exagerado de ser incapaz de cuidar de si; procura um novo relacionamento como fonte de carinho e amparo, quando um relacionamento íntimo se rompe; preocupação irrealista com temores de ser abandonado à própria sorte.
A pessoa que desenvolve transtorno da personalidade dependente apresenta uma necessidade obsessiva de depender de outra pessoa para sobreviver. Sendo assim, o psicoterapeuta deve estabelecer um cuidado especial no vínculo com o seu paciente.
Em análises clínicas, é possível identificar sentimentos relacionados às verbalizações, tais como: incapacidade, desilusão, insegurança, culpa, dependência, insatisfação, angústia, solidão e pessimismo. Ao examinar o repertório comportamental do paciente, é possível notar um impacto significativo no funcionamento biopsicossocial.
A principal crença dos pacientes com personalidade dependente é que não são capazes de se manterem saudáveis. Utilizam a subserviência para despertar a atenção dos outros. A dependência é, geralmente, projetada em membros da família, chefes no trabalho, pessoas que expressam autoridade ou amigos próximos para que estes possam tomar decisões simples, como, por exemplo, escolher uma roupa ou um local de trabalho. Os sentimentos que surgem envolvem a inferioridade e insegurança, que subestimam suas habilidades e competências, aliados a uma vigilância excessiva em relação às críticas externas, provocando um medo intenso de perder a aprovação e experimentar o abandono.
Frequentemente, as oportunidades que envolvem um investimento intelectual, trabalho e novas amizades são negligenciadas para evitar a responsabilidade. Assim, essas pessoas se engajam em atividades prejudiciais para fugir da solidão. A vida social se restringe a confiar em um número restrito de indivíduos com quem se pode contar o tempo todo.
Portanto, quando um relacionamento termina, surge o desespero para suprir essa falta, evitando a sensação de desamparo. Neste cenário, devido às suas necessidades de validação, pessoas com transtorno de personalidade dependente tendem a ser solícitas, agradáveis e submissas nas interações sociais, sempre visando atrair a presença alheia em suas vidas.
2. Métodos:
Uma pesquisa bibliográfica em bases de dados acadêmicas como PubMed, PsycINFO e Scopus, empregando termos como Transtorno da personalidade dependente; Psicoterapia cognitivo-comportamental; Eficácia.
Foram selecionados artigos recentes que abordavam o uso da TCC no tratamento do TPD. Os seguintes instrumentos podem ser empregados para avaliar e intervir: Entrevista Semi-dirigida; Critérios Diagnósticos para Transtorno de Personalidade Dependente (APA, 1994); Inventário Beck de Depressão (BDI) (Beck, Steer e Garbin, 1988); Inventário de Ansiedade Traço-Estado (Spielberger, Gorsuch e Lushene, 1979); Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE) (Spielberger, Spielberger, D.; (1979).
3. Resultados e Discussão:
A importância da terapia cognitivo comportamental no apoio a indivíduos com transtorno de personalidade dependente é clara nos estudos da pesquisadora D’Zurilla e Nezu (2010), que demonstram que a TCC é eficiente na diminuição dos sintomas do TPD, incentivando maior independência e competências sociais. Uma revisão sistemática conduzida por Hofmann et al. (2012) confirmou que a Terapia Cognitivo-Comportamental é benéfico em transtornos de personalidade, incluindo o TPD.
4. Métodos Utilizados:
A reestruturação cognitiva é uma ferramenta que auxilia os pacientes a perceber e contestar pensamentos disfuncionais, como a ideia de que necessitam da opinião de outros para fazer escolhas (Beck, 2011).
De acordo com Beck e Freeman (1993), pessoas com transtorno de personalidade dependente se percebem como carentes, vulneráveis, indefesas e inaptas, ao passo que outras são percebidas como provedoras, apoiantes e capazes. As suas crenças fundamentais incluem: dependemos dos outros para sobreviver e ser feliz, necessito de um fluxo contínuo de apoio e estímulo. As técnicas de terapia cognitiva comportamental melhoram a efetividade do tratamento, tratando de clientes e casos mais complexos, avaliando e direcionando o paciente para um avanço apropriado. (FRIEDBERG; McCLURE; GARCIA, 2011).
Existem algumas críticas à suposta rigidez da psicoterapia cognitivo-comportamental. No entanto, quando a terapia enfatiza a empatia, a cortesia e o respeito integral às necessidades do paciente, isso se transforma em um aspecto favorável.
No entanto, é importante notar que uma técnica que funciona para um cliente pode não funcionar para outro, sendo necessário ter conhecimento e flexibilidade para implementar outras técnicas com a mesma finalidade (LEAHRY, 2006).
Segundo Knapp, 2004, p. 134.
Os pensamentos automáticos são usualmente os primeiros tipos de cognição que o paciente aprende a identificar, com o intuito de posteriormente avaliar sua validade e/ou utilidade e corrigi-los. Pensamentos automáticos (que podem ser palavras, imagens ou memórias) estão na borda da consciência e são parte tão integrante da visão que o paciente tem de si e do mundo que eles parecem distorcidos ou problemáticos, afigurando-se completamente plausíveis.
5. Conclusão:
No processo de psicoterapia, o paciente com TPD terá a chance de reinterpretar suas crenças mais profundas e sua visão sobre os eventos, aprimorando as relações humanas. A técnica de reestruturação cognitiva possibilita o desenvolvimento de novas atitudes assertivas frente à alteração de pensamentos e emoções. Ao adquirir novos repertórios comportamentais, a tendência é a constante participação no auto-reforço.
A Terapia Cognitivo-Comportamental provou ser uma psicoterapia eficaz no tratamento do Transtorno da Personalidade Dependente, fornecendo aos pacientes recursos para gerenciar seus sintomas e aprimorar suas interações interpessoais. Pesquisas futuras devem analisar a eficácia da TCC a longo prazo e explorar combinações com outras técnicas psicoterapêuticas.
6. Referências:
1 – AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
2 – American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing.
3 – Beck, A.; Steer, R. A. e Garbin, M. G. (1988). Psychometric properties of the Beck depression inventory: twenty-five years of evaluation. Clinical Psychology Review, 8, 77-100.
4 – Beck, A. T. (1976). Cognitive Therapy and the Emotional Disorders. New York: Penguin Books.
5 – Beck, J. S. (2011). Cognitive Behavior Therapy: Basics and Beyond. New York: Guilford Press.
6 – Beck, A. T. Freeman, A. (1993). Terapia Cognitiva dos Transtornos de Personalidade. Porto Alegre: Artmed.
7 – FRIEDBERG, R. D.; MCCLURE, J. M.; GARCIA, J. H. Técnicas de terapia cognitiva para crianças e adolescentes. Porto Alegre: Artmed, 2011.
8 – KNAPP, P. Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed, 2004.
9 – LEAHY, R. L. Técnicas de terapia cognitiva: manual do terapeuta. Porto Alegre: Artmed, 2006.
10 – D’Zurilla, T. J. e Nezu, A. M. (2010). Problem Solving Therapy: A Social Competence Approach to Clinical Intervention. New York: Springer.
11 – Hofmann, S. G., Asnaani, A., Vonk, I. J. J., Sawyer, A. T. e Fang, A. (2012). The Efficacy of Cognitive Behavioral Therapy: A Review of Meta-analyses. Cognitive Therapy and Research, 36(5), 427-440.
12 – Kernberg, O. F. (2016). A Psychoanalytic Perspective on the Treatment of Borderline States. In: Borderline Conditions and Pathological Narcissism. New York: Jason Aronson.
13 – Paz, L. A. Ferreira, A. C. e Lima, M. R. (2015). Eficácia da Terapia Cognitivo-Comportamental no Tratamento de Transtornos de Personalidade: Uma Revisão. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 11(2), 45-50.
14 – Spielberger, C. D.; Gorsuch, R. L. e Lushene, R. E. (1979). Manual de psicologia aplicada. Inventário de Ansiedade Traço-Estado IDATE. Tradução organizada por A.M.B. Biaggio e L. Natalício. Rio de Janeiro: CEPA. (Trabalho original publicado em 1970).





