por Neemias Moretti Prudente

Vi ontem um bicho, na imundície do pátio, catando comida entre os detritos […] O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem
(“O bicho”, de Manuel Bandeira).
A fome é uma realidade gritante que assola milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive em um país rico em recursos como o Brasil.
Enquanto a maioria das nações desenvolvidas desfruta de um excesso de alimentos, uma parcela significativa da população global luta diariamente para garantir sua próxima refeição.
Neste artigo, vamos explorar a questão da fome, os impactos do consumo de “bolo de barro” e como essa problemática se manifesta tanto em escala global quanto local, com um olhar crítico sobre o contexto brasileiro.
A epidemia global da fome
De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), atualmente, mais de 700 milhões de pessoas passam fome em todo o mundo, o que equivale a quase 10% da população do planeta. Cerca de 2,3 bilhões pessoas encontram-se em situação de insegurança alimentar. Cada ano, 30 milhões de pessoas morrem de fome no planeta, ou seja, a cada 4 segundos, uma pessoa morre de fome.
Essa realidade é profundamente perturbadora, especialmente considerando os avanços tecnológicos e econômicos alcançados ao longo dos anos.
Bolo de barro: a cruel realidade da fome extrema
Em muitas partes do mundo, a fome extrema leva as pessoas a recorrerem a medidas desesperadas para enganar a sensação de vazio no estômago.
Um exemplo alarmante disso é o consumo de “bolo de barro”, também conhecido como biscoito de lama ou terra.
Em regiões onde a comida é escassa, pessoas têm sido forçadas a comer uma mistura de argila, água e, às vezes, açúcar ou sal para enganar a fome. Para muitos, os biscoitos são o único alimento.
Eles têm gosto de gordura, sugam a umidade da boca e deixam para trás um gosto de terra.
O barro para produzir 100 biscoitos custa US$ 5 (cerca de 5 centavos cada).
“Eu espero algum dia ter alimento suficiente para comer, para que possa parar de comer estas coisas“, disse Marie Noël, que sobrevive com seus sete filhos dos biscoitos de terra.
Embora o consumo de barro possa temporariamente aliviar a sensação de fome, ele não oferece nenhum valor nutricional e pode, na verdade, ser prejudicial à saúde a longo prazo.

A realidade da fome no Brasil
Infelizmente, o Brasil não está imune a essa crise global. Apesar de ser uma das maiores potências agrícolas do mundo e ter recursos naturais abundantes, milhões de brasileiros ainda enfrentam insegurança alimentar todos os dias.
Conforme dados oficiais, o Brasil tem 21 milhões de pessoas que não têm o que comer todos os dias e 70,3 milhões em situação de insegurança alimentar.
A desigualdade socioeconômica, a má distribuição de renda, a corrupção e os problemas estruturais são alguns dos fatores que contribuem para essa situação alarmante.
Crítica e reflexão
Enquanto a fome persiste, é fundamental que questionemos as políticas governamentais, os sistemas econômicos e as estruturas sociais que perpetuam essa injustiça.
Além disso, é crucial reconhecer a necessidade de soluções práticas e sustentáveis para enfrentar esse problema de frente.
Isso inclui investimentos em programas de segurança alimentar, educação nutricional, distribuição equitativa de recursos e medidas para combater a pobreza e a desigualdade.
Conclusão
A fome é uma tragédia que afeta milhões de vidas em todo o mundo, incluindo no Brasil. Enquanto refletimos sobre essa realidade cruel, é importante não apenas aumentar a conscientização, mas também agir.
Como indivíduos e como sociedade, temos o poder de fazer a diferença. Cada ato de bondade, cada doação, cada voz levantada em solidariedade contribui para a construção de um mundo onde a fome não seja mais uma realidade.
E é com essa esperança que continuo a escrever, a lutar e a sonhar por um futuro onde todos tenham acesso a alimentos nutritivos e suficientes para viver uma vida digna.
O “bolo de barro” deve se transformar em um banquete de oportunidades e esperança para o futuro.

Neemias Moretti Prudente. Advogado Criminalista, Mestre e Especialista em Ciências Criminais, Filósofo, Escritor e Professor. Editor do Factótum Cultural. Escrevendo para não enlouquecer enquanto espera a invasão alienígena ou algum meteoro en passant. Sobrevivendo na força do Haux!
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