Por Neemias Moretti Prudente

“A pessoa que pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida”– Augusto Cury
Neste mês se promove em todo o mundo o “Setembro Amarelo”, uma campanha que objetiva conscientizar e alertar a população a respeito do suicídio e suas formas de prevenção.
A campanha foi criada em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), com o objetivo de reunir pessoas em torno de projetos de valorização da vida e de conscientização da prevenção do suicídio.
O mês foi escolhido porque o dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Esta data foi criada em 2003, pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio e pela Organização Mundial de Saúde, com o intuito de incentivar os países membros a adotarem estratégias para combater o problema.
Quem nunca pensou em suicídio em algum momento da vida? Ou quem não conhece alguém que já pensou, tentou ou chegou a cometer suicídio?
Para o filósofo Albert Camus (O Mito de Sísifo) “só há um problema filosófico verdadeiramente sério sobre o qual o homem deve refletir: o suicídio”.
É suficiente essa afirmação para se mensurar quão delicado e complexo é esse tema. Julgar se a vida vale a pena ou não ser vivida significa responder uma das questões fundamentais da filosofia.
A questão do suicídio (morte voluntária) é objeto de discussão desde a antiguidade e gera confronto entre aqueles que, como os estoicos, o defendem e os que, por outro lado, o condenam, como os platonistas.
Para o sociólogo Émile Durkheim (na obra: O Suicídio), suicídios estão relacionados com fatores sociais. A falta ou excesso de integração social que leva as pessoas ao suicídio. Ele diferenciou três tipos de suicídio:
- i) o egoísta, praticado por aquelas pessoas que não estão devidamente integradas à sociedade e geralmente se encontram isoladas dos grupos sociais (ex. divorciados e idosos);
- ii) o altruísta, em que se há o excesso de integração social, o indivíduo está tomado pela obediência e força coercitiva do coletivo (ex. kamikazes e homens-bomba); e
- iii) o anômico, é aquele que ocorre em uma situação de anomia social, ou seja, quando há ausência de regras que mantinham a coesão social, gerando o caos (ex. em casos de crise econômica, onde os suicídios são motivados por desemprego e perda de poder aquisitivo).
Sem dúvida, a pessoa que quer se suicidar muitas vezes se sente esquecida ou ignorada; outras, sente vontade de desaparecer, fugir ou de ir para um lugar ou situação melhor; É comum acontecer diante de momentos de profundo desespero, sofrimento e de grande falta de esperança; O que quer é alcançar a paz, descanso ou um final imediato aos tormentos que não terminam.
Quando alguém decide pôr termo a sua própria vida, as palavras de T. S. Eliot fazem ainda mais sentido, pois é isso que pensamos passar na cabeça daquele que decidiu morrer: “Deserto e vazio. Deserto e vazio. E as trevas à beira do abismo”.
Não obstante, envolto por uma dor extremamente silenciosa, o suicídio hoje é considerado tabu, motivo de vergonha ou condenação, preconceito e estigma, sinônimo de loucura, assunto proibido entre a maioria das pessoas.
Diante disso, não é tratado e prevenido de maneira eficaz, tornando-se, além de tudo, um grande problema de saúde pública.
Pois bem.
O suicídio, ou violência autodirigida como é classificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), pode ser definido como uma gesto de autodestruição, de dar fim a própria vida intencionalmente.
São vários os motivos que podem levar alguém ao suicídio, tais como doença mental (ex. depressão), abuso de álcool e drogas, bullying, desestrutura familiar, perdas recentes, abusos e maus-tratos, fatores genéticos, cobranças sociais, desemprego, fracasso amoroso, doenças, falência financeira, culpa, remorso, ansiedade, medo, fracasso, humilhação, religião, cultura, ambiente e por aí vai.
Segundo o Ministério da Saúde, mais de 96% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais, depressão, transtorno bipolar e/ou abuso de substâncias como a maconha — números que colocam essa entre as três principais causas de morte de pessoas entre 15 e 29 anos no mundo.
Os pesticidas, o enforcamento e as armas de fogo são os métodos habituais mais empregados pelas pessoas para cometer o suicídio.
O quadro é preocupante.
Segundo dados da OMS, o suicídio é a 14ª causa de morte no mundo inteiro (e a 2ª maior causa de morte de jovens, com idade entre de 15 a 29 anos). Estima-se que 800 mil pessoas se suicidam a cada ano em todo o mundo, o que representa uma morte a cada 40 segundos.
O número de vidas perdidas desta forma, a cada ano, em todo o mundo, ultrapassa o número de mortes decorrentes de homicídio e guerra.
Além disso, a OMS afirma que para cada suicídio podem ter ocorrido mais de 20 outras tentativas que não deram certo, sem contar as muitas pessoas que consideraram fortemente a possibilidade. Inclusive, existem pessoas que são impactadas por essas mortes (familiares, amigos etc.) e podem até se tornarem suicidas.
Já no Brasil, a cada 45 minutos 1 pessoa tira sua própria vida, ou seja, por dia cerca de 32 pessoas cometem suicídio no país. Segundo a OMS, o Brasil ocupa a oitava posição no ranking de países com maior incidência de suicídios, ultrapassando o número de 11 mil casos anuais.
Segundo estudo realizado pela Unicamp, 17% dos brasileiros, em algum momento, pensaram seriamente em dar um fim à própria vida e, desses, 4,8% chegaram a elaborar um plano para isso.
O que mais preocupa é que, enquanto a média mundial permanece estável (12 mortes por 100 mil habitantes), o número de suicídios tem aumentado em mais de 10% no Brasil nos últimos anos (7 mortes por 100 mil habitantes), inclusive em 2022, durante a pandemia e o isolamento social.
A Pandemia da COVID-19 e o isolamento social também aumentam fatores de risco para suicídio. A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) estima que de 30% a 50% das pessoas expostas a uma situação de pandemia podem desenvolver ou ter algum tipo de manifestação de intenso sofrimento.
Supõe-se que duranta a pandemia poderá haver um incremento de 50% na incidência anual de mortes por esta causa.

Mas a boa notícia, contudo, é que, segundo a OMS, 90% dos casos de suicídio podem ser prevenidos (evitados).
Mas que passos o Brasil tem dado a fim de prevenir a sua ocorrência?
Poucos.
Em 2006, o Ministério da Saúde reuniu um grupo de estudiosos e promulgou diretrizes para a prevenção. Mas não houve um plano, nem recursos orçamentárias até hoje.
Um passo importante foi dado em março de 2019 ao aprovar a Lei da Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio (Lei nº 13.819/2019).
A lei foi sancionada em abril instituindo a notificação compulsória pelos estabelecimentos de saúde dos casos de violência autoprovocada. Também cria um sistema nacional envolvendo estados e municípios para prevenção da automutilação e do suicídio e um serviço telefônico gratuito para atendimento ao público.
Se, de um lado, o Brasil está entre os países onde os índices de suicídio aumentam e o governo não faz o esforço que deveria, de outro, as organizações não governamentais, como o Centro de Valorização da Vida (CVV), estão encampando essa luta.
E o que podemos fazer, enquanto indivíduo, para ajudar?
O primeiro passo é martelar esses tabus, falando sobre o assunto, conscientizando, compartilhando informações e estimulando a prevenção. Saber quais as principais causas e as formas de ajudar pode ser o primeiro passo para reduzir as taxas de suicídio.
O segundo passo após identificar um comportamento suicida é utilizar o diálogo visando interromper o ciclo de autodestruição, ou seja, ouvir a pessoa e fazer com que ela sinta que está sendo ouvida e compreendida (sem julgá-la).
Então o terceiro passo é conduzi-la a um profissional (ou serviço) especializado.
Portanto, entendemos que se boa parte dos suicídios podem ser evitados e todos podem ser agentes de prevenção. Por isso, é importante despertar a conscientização sobre o tema. Se a população estiver consciente, passa a entender que o problema existe e o que pode fazer para ajudar quem está em risco.
Por fim, setembro é o mês da campanha de conscientização sobre a prevenção ao suicídio. Precisamos falar sobre o tema e, mais do que isso, ajudar quem precisa.
Precisa de Ajuda: O Centro de Valorização da Vida é responsável por oferecer apoio emocional e prevenção ao suicídio, atendendo gratuitamente e sob sigilo por telefone (188), chat e e-mail.
Quando a noite cai é preciso focar na preservação da vida.

Neemias Moretti Prudente, Professor, Criminalista, Mestre e Especialista em Ciências Criminais, Graduado em Direito, Licenciado em Filosofia, Escritor, Ufólogo e Anti-Penalista. Diretor Geral e Editor Chefe do Factótum Cultural. Escrevendo para não enlouquecer enquanto espera a invasão alienígena ou algum meteoro en passant.
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