
No livro ‘Por que meditamos’, Daniel Goleman defende que a meditação deixa o corpo mais calmo, tornando a mente mais clara para entender melhor o mundo e tomar decisões mais acertadas.
Atualmente, muito se fala sobre a meditação e seus benefícios. A prática, no entanto, parece algo inalcançável para boa parte das pessoas, que se consideram agitadas ou sem tempo. Ainda que consigam romper a primeira barreira e comecem a meditar, muitos se veem diante de um turbilhão de pensamentos que parecem representar o oposto da paz interior buscada.
Para todas essas pessoas, o psicólogo formado em Harvard Daniel Goleman escreveu “Por que meditamos” (editora Objetiva), em parceria com o professor de meditação nepalês Tsoknyi Rinpoche. No livro, eles oferecem motivos e métodos para seguir com a meditação, como forma de combater a ansiedade, a falta de compaixão e o estresse crônico.
Com voz baixa e extremamente calma, Goleman ensina a superar os primeiros obstáculos para adoção da prática e garante: todos precisamos dela. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.
Tenho que começar com uma confissão: minha terapeuta me disse por muitos anos para começar a meditar. Eu tentei, mas nunca consegui encontrar o momento e forma certos. Que dicas o senhor daria para pessoas como eu?
Você tem filhos? Você cuida deles? Você chega na hora do seu trabalho? Há necessidades que são muito importantes. É uma questão de prioridades. O que é prioridade para você? Talvez a meditação não tenha sido. Se você quer fazer com que algo seja importante, você precisa torná-la importante. Se meditação é igualmente valioso, então você encontra tempo. Eu sempre gostei de acordar, tomar uma xícara de café, depois meditar e começar meu dia. Talvez você não possa se dar a esse luxo, então talvez seja quando chegar em casa à noite, ou quando as crianças forem dormir. Em algum momento do dia você precisa tirar alguns minutos para você. Então a pergunta é: o que você faz com esses minutos? Fica nas redes sociais? Então talvez pudesse gastar os 5 minutos para meditação. Se começar com 5 minutos está bom, pode ir para 10 mais tarde.
Muitas pessoas relatam dificuldade em parar com os pensamentos, relaxar a mente. O que fazer?
Todos que começam a meditar pensam que sua mente está louca, fora de controle. Mas essa é a prática. É trazer sua atenção para aquela única coisa. Você pode usar um mantra, ou um ritmo para a respiração, não importa. A grande luta é com sua própria mente, com seus pensamentos E você deve se lembrar que todo mundo passa por isso mesmo, não é só com você. Este é realmente o trabalho.
Os pensamentos são como nuvens. Ficamos vendo-as passar no céu?
Você tem que assistir as nuvens, mas elas são muito sedutoras e embarcamos nelas o tempo todo. É não pular quando seus pensamentos dizem: “pule!” Mas temos que reconhecer que eles estão lá: “Uhn, estou pensando nisso”. Eu não digo espere até eles passarem, eu diria deixe-os ir e vir. E, então, quando eles vão, você faz sua meditação. Que tipo de meditação quer fazer? Será apenas relaxar, respirar e tentar ver a mente? Muitas pessoas acham que ajuda no começo ouvir um áudio. Há gravações muito boas, não sei se estão disponíveis em português, provavelmente sim. É útil ter uma voz dizendo o que fazer. Como um guia.
Tem gente que simplesmente afirma que “não é o tipo de pessoa para meditar”. O que diria para convencê-los a tentar?
Na vida, eu diria que o maior desafio para se tornar mais inteligente é controlar sua própria mente. Meditar ajuda você a gerenciar melhor sua mente. Hoje em dia temos muitos estudos que provam quantos benefícios podemos ter. As pesquisas são muito claras. Ela deixa seu corpo mais calmo, o que significa que você pode lidar melhor com o estresse e isso torna sua mente mais clara. O que significa que você pode receber melhor as informações, entender melhor o mundo e tomar melhores decisões. Não sei quem não quer isso. Acho que todo mundo precisa.
No livro, você fala sobre o ciclo de emoções negativas que continuam nos segurando. Qual é a relação entre a meditação e esse ciclo?
Todo terapeuta sabe que passamos por nossa infância aprendendo diferentes padrões emocionais, que funcionavam nas nossas famílias de origem. E o problema com eles é que aprendemos muito cedo, mas eles aparecem em nossos relacionamentos adultos. Mindfulness é uma ferramenta muito poderosa para ajudar na terapia. Você pode usar essa atenção plena para observar seus padrões. Meditação e terapia se tornou uma combinação muito popular no mundo da psicoterapia e a razão é que as pesquisas mostram que funciona, que é mesmo uma combinação poderosa.
O livro também fala sobre o amor essencial. Um ápice emocional que poderia ser alcançado com a meditação.
Existem muitos tipos de amor. Há o amor dos pais por um filho. O amor que você tem por seus amigos, por sua família. Todas essas são variedades diferentes de amor. E o amor essencial é um tipo particular de amor onde você não está preso em seu próprio ego, em seus pensamentos sobre si mesmo. Vem daquilo que é comparado ao amor puro. É falado no Cristianismo, em todas as principais religiões, na verdade, como o melhor tipo de amor. Pense em um santo. Um amor que realmente seja compassivo, de querer ajudar a outra pessoa, diminuir o sofrimento. E não esperar nada para si mesmo. Essa é a essência do amor. E qual é a relação com a meditação? A meditação é um caminho para isso porque ajuda você a ser calmo e claro. Se você for mais fundo, começará a perceber seus pensamentos e como eles reforçam a ideia de si mesmo, do eu. E você pode abrir mão disso cada vez mais. Requer mais profundidade do que meditação.
Isso parece algo muito difícil de alcançar.
Acho que varia de pessoa para pessoa e talvez algumas nem precisem meditar. Não sei se Madre Teresa meditava, mas ela tinha um sentido muito forte desse amor. Ela estava servindo a Deus. Acho que é uma aspiração alcançar esse amor.





