por Adriano Nicolau da Silva

Hoje é domingo, a temperatura está muito baixa e ainda é madrugada. Os pensamentos de Pedro circulam de um lado para o outro e não os deixam relaxar, está preocupado com o trabalho e tudo parece chamar a sua atenção de forma grandiosa. Detalhes como consertos que precisa realizar na sua casa, são desprezados.
A rotina de domingo era prazerosa, ajudava a esposa a fazer a compra do supermercado, dava atenção ao cachorro de estimação, limpava o carro e à tarde fazia caminhada e agora tornou-se uma rotina cansativa e penosa, com mal-estar de forma generalizada, confusão, letargia e ansiedade. Ultimamente ele sente o coração batendo disparado, as mãos ficam sempre geladas, dores nas pernas, perda de apetite, dor de estômago e tonturas.
Pedro sempre foi muito dedicado aos estudos e no trabalho, selecionado ainda bem jovem como office boy, acompanhou diversos acontecimentos políticos, sociais e econômicos nas últimas décadas. Quem o conhece tem consciência da sua competência e dedicação ao trabalho, sempre atento à globalização à revolução tecnológica, às mudanças nos setores de negócios, à competitividade de mercado e ao aprimoramento pessoal e profissional para corresponder às demandas do setor em que trabalha.
Pedro admite que para manter o seu trabalho, precisou se adaptar a um ritmo acentuado, estímulo ambiental adverso com muitos ruídos por longo tempo, relacionamento interpessoal desgastante, competição interna, falta de avaliação justa de desempenho, papel indefinido de alguns funcionários, política incoerente de carreira, pressão de desempenho, tempo inadequado, falta de autonomia nas reuniões deliberativas opinativas, comunicação truncada entre colegas, chefes de setores e salários injustos. Até o momento conseguiu visualizar tudo isso como um processo natural da vida, numa sociedade, na economia atual, sem muitos questionamentos, não percebendo estar sobrecarregado. Todos esses acontecimentos colocaram em risco seu bem-estar, mas sobretudo quando recebeu uma promoção para coordenar e supervisionar uma equipe de 100 funcionários do departamento de vendas.
Pedro percebe que algo não vai bem. Está sentindo muita tensão, desmotivado e uma certa melancolia ao perder o equilíbrio pessoal para a tomada de decisões. Uma sensação estranha invade o seu corpo, induzindo-o a pensar que algo catastrófico vai acontecer, isto o desgasta física e mentalmente. Há uma confusão generalizada de alta percepção. Algumas coisas são visíveis no seu corpo, o seu peso muito elevado, constantemente surgindo herpes na sua boca e a pressão arterial alterada. Pedro chamou a esposa dizendo que não estava se sentindo bem. Muito medo, dores no peito e estresse, é o que ele disse sentir e precisava de um atendimento médico urgente. Assim fizeram, correram para o pronto-socorro procurar ajuda de um profissional, para entender o que estava acontecendo. Imediatamente, recebeu o diagnóstico de estresse.
É muito comum falar desse assunto na atualidade, segundo a OMS, cerca de 90% das pessoas estão estressadas no Brasil, isso intensificou-se durante e após pandemia de COVID 19. O estresse, como vimos no Pedro, foi acontecendo de forma dinâmica e gradativa. É importante salientar que pode ser um alerta, uma conscientização da possível perda da saúde e da possibilidade de colocar em prática o mecanismo de defesa contra as adversidades da vida pessoal e profissional.
Foi o médico canadense-húngaro János Hugo Bruno “Hans” Selye, que definiu o estresse na década de 1930. HANS SELYE, segundo ele é como uma resposta inespecífica do corpo a qualquer demanda, independentemente da sua natureza. Esta resposta incluía uma série de reações fisiológicas que ele determinou de Síndrome de Adaptação Geral (SAG). Neste contexto, o estresse é visto como externo ao indivíduo. Nas suas observações clínicas ele percebeu que existem fases importantes a serem compreendidas. A primeira se apresenta como manifestações agudas, a segunda é de resistência do organismo e a terceira de completa exaustão. Para o autor, uma fase não está necessariamente ligada a outra.
Em outra obra, Rodrigues (1997) traz uma definição de estresse como “uma relação particular entre uma pessoa, o seu ambiente e as circunstâncias às quais está submetida, sendo avaliada pela pessoa como uma ameaça ou algo que exige dela mais que as suas próprias habilidades ou recursos e que põe em perigo o seu bem-estar” (op. cit., p.24).
Pedro, após a consulta com o médico, sensibilizou-se e passou a cuidar melhor da saúde mental e física, numa postura biopsicossocial. Para isso, pensou seriamente em investir em psicoterapia no desenvolvimento da autoconsciência e o equilíbrio pessoal. Percebeu que o estresse é um processo natural, dinâmico e inteligente de adaptação diante das adversidades da vida e se faz necessário o desenvolvimento pessoal para lidar melhor com os vários desafios laborais, estimular as relações humanas saudáveis, bem como repensar a política organizacional de trabalho, com mais treinamentos voltados para a administração dos conflitos intrapessoais e interpessoais, numa perspectiva de qualidade de vida. Percebeu que o investimento no capital humano da empresa é importante aos olhos dos gestores, assim como a saúde mental e a produtividade.
E você, como administra o estresse no trabalho?
Referências:
∙ Rodrigues, A. Stress, trabalho e doenças de adaptação. In: Franco, a.c.l. &Rodrigues, a.l. (1997). Stress e trabalho: guia prático com abordagem psicossomática. São Paulo: Atlas, cap. 2.
∙ Selye, H. (1959). Stress, a tensão da vida. São Paulo: Ibrasa – Instituição Brasileira de Difusão Cultural.

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. E-mail: adrins@terra.com.br. Colunista do Factótum Cultural.
Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.





