O sofrimento é um dilema que aflige a humanidade e desafia crentes e céticos em suas reflexões sobre a existência de Deus e a natureza humana. Examinaremos o problema do sofrimento à luz da filosofia cristã, tomando como base os escritos de três doutores da Igreja: São Boaventura, Santo Agostinho e São Gregório de Nissa. Para o Boaventura, o sofrimento é um meio pelo qual somos chamados a participar da paixão de Cristo, a fim de alcançarmos a redenção. O sofrimento, nessa perspectiva, não é um fim em si mesmo, mas um caminho para a união com Deus. Ao abraçar o sofrimento com amor e aceitação, podemos experimentar a graça transformadora de Deus em nossas vidas. 

Santo Agostinho abordou o problema do sofrimento em suas reflexões sobre o livre-arbítrio humano e a presença do mal no mundo. Para Agostinho, o sofrimento é resultado do pecado original e da liberdade humana. O sofrimento, segundo Agostinho, é uma advertência e um chamado à conversão, um meio pelo qual somos levados a reconhecer nossa necessidade de Deus e a buscar uma vida de virtude. Assim, para Agostinho, o sofrimento pode ser visto como uma manifestação da misericórdia divina.

Por sua vez, São Gregório de Nissa, teólogo e filósofo do século IV, ofereceu uma perspectiva única sobre o sofrimento ao explorar a sua relação com a purificação da alma. Para ele, o sofrimento é um processo de purificação que nos permite transcender nossa condição humana. Ao enfrentarmos o sofrimento com fé e esperança, somos transformados interiormente e nos aproximamos cada vez mais de Deus.

Diante dessas perspectivas filosóficas, é importante ressaltar que o problema do sofrimento não pode ser totalmente compreendido ou solucionado por meio da razão humana. A sua natureza permanece um mistério que ultrapassa nossas capacidades intelectuais. No entanto, as reflexões dos doutores mencionados abrem uma perspectiva de contemplação. Eles nos lembram que o sofrimento não deve ser encarado apenas como um mal a ser evitado, mas como um aspecto inevitável da condição humana que pode ter um propósito maior em nosso crescimento espiritual.

Que essas perspectivas filosóficas possam nos convidar a uma busca contínua de significado e esperança. E que, mesmo diante da dor, possamos encontrar consolo na certeza de que Deus está presente em nossa jornada, oferecendo-nos consolo, força e a promessa da redenção. Que a sabedoria desses doutores ilumine nossa compreensão e nos encoraje a abraçar o sofrimento com coragem, fé e confiança na providência divina.

Correio Popular. 4.6.2023.

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