por Simone Puglielli Lotito

A neurociência e neuroplasticidade nos trouxe que as respostas estruturais do nosso cérebro mudam de acordo com nossas vivências

Você já pensou na autorresponsabilidade de ser protagonista da sua própria felicidade?

A felicidade também é uma habilidade e, sim, ela pode ser treinada. Ninguém nasce feliz saindo da segurança, calor, amor e conforto da placenta levando tapa no bumbum, no ar-condicionado gelado da maternidade, e acha que aquilo é felicidade, não é?  

A neurociência e neuroplasticidade nos trouxe que as respostas estruturais do nosso cérebro mudam de acordo com nossas vivências.  É atiçador saber que na etimologia a origem da palavra felicidade vem do latim felicitas que significa produzir, ventura.

Pra muitos isso é algo inalcançável e ele projeta no parceiro a responsabilidade de fazê-lo feliz e só coadjuva.  Pra outros isso é básico indubitável e descomplicado.  Isso acontece pelo nosso coeficiente das nossas experiências que geram raízes emocionais topográficas que florescem em consequências gerando reações positivas ou negativas. Temos uma tríade de conteúdos que são divididos em: 

Consciente que são os pensamentos lúcidos percebidos memorizados e acessíveis. 

Pré-consciente que internaliza emoções no nosso aparelho psíquico e vem à mente de forma natural sem grande esforço. 

  • Inconsciente é a caixinha num labirinto onde mora instintos reprimidos, castrações e onde mora um arquivo nosso que são os problemas emocionais, nossos traumas, dores psíquicas, desejos reprimidos da nossa vida todinha e não acessamos abrindo a caixinha da memória.
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  • Não há um resgate voluntário dessas lembranças, mas esse inconsciente influencia todo nosso comportamento por toda a vida

Quando algum gatilho é acionado ao viver algo que associe a algum momento de dor ou de prazer, dispara uma avalanche de reação e equações químicas que acionam um turbilhão de sensações fisiológicas e hormonais que não temos controle. Isso pode nos conectar imediatamente a insight de dor psíquica ou de puro deleite de prazer. Enquanto a associação e lembrança de um átimo de prazer hiperativa a área de recompensa cerebral e gera até oxitocina pela satisfação e pelo prazer, em contrapartida se nossa lembrança arremeteu a um momento de dor emocional libera hormônio do stress e mecanismos de defesa que podem nos paralisar, auto sabotar, gerar angústia e medo. O segredo seria encontrar a balança emocional ou viver as duas polaridades da felicidade e da infelicidade?

A neurociência já usa algoritmos pra nos mapear e equalizar nossas reações pra prevenção de depressão.  A Inteligência Artificial já apresenta um acerto de 80% nos diagnósticos de transtornos mentais baseada em feições de felicidade ou infelicidade incluindo o transtorno da depressão. 

Mas será que a IA vai conseguir equacionar a nossa pulsão de vida e a nossa autorresponsabilidade de alimentá-la? Nossa estrutura psíquica individual está condicionada como um músculo, quando exercitada de forma positiva estimulando acesso aos momentos de felicidade que geraram arquivos neurais de prazer, a famosa química da felicidade. Os estudos científicos mais recentes já comprovam que a infelicidade, incluindo a depressão, não está relacionado a baixos níveis de serotonina que encontramos no antidepressivo e sim numa molécula como um carimbo pra cada memória nossa de momentos felizes ou infelizes que vão determinando nosso modo padrão de reviver mais felicidade ou infelicidade, de acordo com o banco de carimbos na nossa memória de sensação feliz. 

A malha de circuito neural decide a nossa felicidade ou infelicidade baseada no que nós carimbamos, no que nós memorizamos na valência positiva através da neurotensina que também influencia nossa resposta emocional. Quando o paciente está com depressão ele está no piloto automático, ele aciona a rede de modo padrão por estar condicionada a momentos de tristeza, o que agrava a depressão e dificulta sair dela e encontrar o bem-estar. 

Quando ficamos por um período infeliz, deprimidos perdemos a vontade de pequenas coisas que nos dão prazer.

Aí o medo de ser feliz também pode estar associado a alguma humilhação ou punição na infância após ter vivido algum momento feliz e ter sido carimbada a memória da experiência traumáticas que bloqueia a pessoa na vida adulta a dar um passo em direção a viver e se permitir momentos felizes. 

A psicanálise pode transformar nosso ângulo de visão de cada emoção durante o processo de autoconhecimento vamos descobrindo que a vida adulta é bem menos adulta do que imaginamos porque ela é dirigida e totalmente pilotada pelas emoções da nossa infância

A psicanálise nesse momento vai ser a medicina da alma. Quando fazemos uso do antidepressivo ele só age perifericamente o que irá tratar a alma e te guiar na autocompreensão até nossas possíveis neuroses e transtornos psicopatológicos é a psicanalise. Da mesma forma que a depressão é multiplicidade, a felicidade é multifacetada, mas ambas moram nos detalhes. 

Observe como as pessoas que viveram traumas muito densos, intensos, profundos se reconheceram naqueles momentos de nostalgia, tristes, deprimidos e com dificuldade de se reconhecer por algum tempo no podium da felicidade. Sair da tristeza assusta, gera medo angustia pra quem viveu muito tempo infeliz, já se conhece e reconhece nessa zona de dor emocional, e ela passou a ser a sua zona de conforto, o que dificulta e até impede de se estabilizar na felicidade. 

Vale nos auto-observarmos se não estamos sabotando nossa felicidade por medo de não nos reconhecer na zona de desconforto porque todos já vivemos nela, todos já vivemos momentos ausentes de felicidade. 

Se a felicidade é multifacetada, pode ser conquistada com disciplina.

Topa o desafio de treinar seu cérebro a viver, carimbar, memorizando momentos felizes? Topa assumir a autorresponsabilidade de carimbar o seu passaporte da felicidade? Acessar a sua memória de um cheiro que te fez levitar, uma atividade que te gerou prazer, um lugar que você se encantou, exercitar a compaixão, a autoconsciência, um autocuidado que te alegrou, uma música que te fez levantar e dançar, uma atividade física que gere dopamina, endorfina, dar uma volta no quarteirão de mãos dadas com quem você ama, reassistir um filme que te faz rir, pulverizar o pozinho mágico da felicidade nas pequenas coisas do dia a dia, passar a tarde com amiga, reler o livro que mudou a sua vida,  abrir aquela garrafa de vinho que está guardada esperando uma comemoração,  fazer aquela receita que você se delicia, levar pra sua análise também momentos felizes e recordá-los, revive-los, levar flores e enfeitar sua casa, abrir o álbum antigo de fotografias? Enfim, ver que você é um vencedor e chegou até aqui ,fazer algo que tenha significado pra você, ligue pra aquela pessoa que te faz bem e fale isso pra ela, declare uma poesia, veja o pôr do sol, diga eu te amo pra quem te gera borboletas no estômago, corra na chuva, vista a roupa que você mais gosta, faça caridade, encontre reciprocidade e cordialidade, agarre a oportunidade de viver de curtir suas qualidades,  descubra sua religiosidade, tenha coragem de fazer  análise e treine seu cérebro pra valorizar, enfatizar, priorizar  e memorizar seus instantes de felicidade.

Band. 26.2.2023.

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