
Um dos maiores clássicos de Frans Kafka é leitura obrigatória para entender um mundo incompreensível
A cena se passa em meados dos anos 90, nos arredores da Praça XV, Centro de Florianópolis. No balcão da padaria, infelizmente já substituída por uma farmácia, janto uma deliciosa fatia de pizza adormecida, acompanhada por uma média com leite servida na xícara encardida. Na parede em frente, na altura dos olhos de todos os presentes, passeia uma destemida barata das mais imponentes – nem menor do que um celular dos antigos, nem maior do que uma Havaianas 42. Discreto, preocupado em não assustar a moça que come na banqueta ao lado, sinalizo para a atendente que há algo errado. Ela me olha como se o algo errado seja eu, leva uns dois minutos até virar o rosto e resolve a situação com agilidade e elegância. Cataploft! e lá se vai o inseto, que cai morto e deixa uma leve marca marrom na parede.
Aproveito a situação para impressionar a bela vizinha que tem ares de intelectual. Fecho sobre a bancada o livro que folheio, um clássico, e apelo para a piada de biblioteca:
– Lá se foi mais um membro da família Samsa.
A moça percebe o contexto, mira fundo nos meus olhos e completa.
– Se vai usar o nome de Kafka em vão, ao menos leia o livro inteiro, seu bostífero! (um belo xingamento, diga-se, usado por poucos, mas bons).
Em seguida abandona o ambiente, mais incomodada com minha ignorância do que com a cena repugnante vista há pouco.
Ler Franz Kafka é essencial – não apenas para situações cotidianas como essa. O autor de clássicos como Carta ao Pai, O Processo e Um artista da fome não é apenas um escritor. O judeu nascido em Praga em 1883 é muito mais que isso. Kafka é uma forma de ver o mundo e tentar entender as pessoas e a realidade que nos cercam. Tentar entender, com a quase certeza do fracasso. Afinal, o mundo, como tão bem nos ensina o advogado morto pouco antes dos 41 anos, é um espaço incompreensível e dominado pelo absurdo, com engrenagens secretas e marcado pela tragédia.
Pouco volumosa, a obra do escritor é um tesouro da literatura que merece ser conhecido por todos. Para quem ainda não leu Kafka, uma boa “porta de entrada” pode justamente ser um dos seus textos mais conhecidos: A Metamorfose, justamente o exemplar coadjuvante no episódio da padaria.
Abaixo, outras quatro razões (além da possibilidade de fazer piadas intelectualizadas com baratas) que devem convencê-lo a tirar da prateleira esse clássico dos clássicos.
- O livro é curto
Classificado por uns como novela e por outros como conto, A Metamorfose tem cinquenta e poucas páginas (menos de 80 mesmo nas edições de bolso). Um bom motivo para superar qualquer preguiça e dedicar umas poucas horas à leitura.
Incrível perceber como em tão pouco espaço o autor seja capaz de explorar a fundo questões tão diversas quanto a ambiguidade nas relações familiares, a opressão social aos mais pobres, a desigualdade nas relações de poder e uma série de outras questões demasiado humanas. Os relacionamentos do protagonista com os chefes, com a irmã, com o pai e com a mãe são explorados de forma muito rica pelo autor. Mesmo em passagens curtas, Kafka é capaz de revelar em poucas frases as razões e consequências de mudanças de comportamento que consumiriam páginas e páginas de escritores menos talentosos.
Surpreendente ainda imaginar como em menos de um mês de trabalho – de 17 de novembro a 7 de dezembro de 1912 – o autor tenha conseguido criar um livro que soa atual, criativo e surpreendente mesmo depois de 110 anos desde a publicação.
- Que abertura!
Há algumas grandes obras da literatura que tem aberturas inesquecíveis e que se tornam verdadeiros clássicos. É o caso indiscutível d’A Metamorfose:
“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado em um inseto monstruoso”.
Outra mostra do talento único do autor é o fato de o leitor “comprar” de imediato o argumento – “um jovem caixeiro viajante acorda transformado em inseto” – e embarcar na história “absurda”.
- Ponto alto de uma tradição
Há na literatura da Europa Oriental certa frequência na exploração do absurdo como ponto de partida para uma narrativa. Kafka por certo é um dos pontos mais altos dessa tradição, que tem diversos outros pontos de destaque antes e depois dele.
Há quem trace, por exemplo, um paralelo entre a transformação do jovem Gregor Samsa e o caso do personagem principal do conto O nariz, de Nikolai Gogol, lançado décadas antes. Na obra, o Major Kovaliov simplesmente perde o próprio nariz sem qualquer explicação prévia. De um dia para o outro, o nariz passa a gozar de prestígio social e passear pela cidade, atrapalhando a vida de seu antigo dono. Diferente do texto de Kafka, porém, o conto usa o absurdo em favor do cômico.
Outro exemplo que ecoa Kafka é o de Sigismund Krzyzanowski. Russo morto em 1950, com publicações póstumas, o autor tem pelo menos um conto (presente na ótima coletânea O marcador de página e outros contos) que usa o absurdo para colocar o leitor à par do clima de opressão característico dos governos totalitários (Krzyzanowski viveu e sofreu sob o regime stalinista). No texto, o personagem compra um líquido “mágico” capaz de aumentar as dimensões do apartamento onde vive. Na prática, porém, o produto torna o ambiente cada vez mais opressivo e frustra todos os planos do protagonista.
No O Processo, outra leitura obrigatória da obra de Kafka, esse clima de opressão é semelhante. Em vez da alegoria do apartamento, no entanto, no caso é a burocracia judicial que “esmaga” o Senhor K. Já em A Metamorfose, o ambiente também é opressivo. Transformado em inseto, o personagem se vê em determinado momento, justamente quando mais precisa de privacidade, preso em um quarto com portas em três paredes diferentes.
- Não é uma barata
Kafka pediu aos seus editores que não desenhassem o jovem Gregor metamorfoseado em inseto. Apesar disso, a criatividade do público – sabe-se lá por que – transformou o jovem em barata, o que me levou ao comentário infeliz no episódio da padaria. Mas no texto há uma breve passagem com a empregada da casa que mostra o equívoco dessa conclusão. “No começo ela também o chamava ao seu encontro com palavras que ela provavelmente considerava amistosas como, ‘Vem um pouquinho aqui, rola-bosta’”, o que faz supor que o inseto monstruoso fosse um tipo de besouro. Ao contrário de mim, que ainda estava na página 15, em meados dos anos 90 a moça da padaria já havia lido toda a novela e sabia respeitar o desejo do autor. Gregor Samsa não se metamorfoseou em uma barata.






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