por Adriano Nicolau da Silva

1. Psicose e o desafio da Ciência
1.2 Psicose e loucura todo mundo tem um pouco?
O ser humano sempre teve um fascínio pela loucura. Quando se percebe um comportamento diferenciado das regras e normas convencionais, já se pensa em loucura. A previsibilidade ditada pelas demandas de um cérebro racional remete um pensar naquilo que é certo ou errado e se enquadrar nas normas familiares, sociais e da comunidade para gerar o sentimento de segurança.
“Os indivíduos participam muito estreitamente da vida da sociedade para que ela possa icar doente sem que eles sejam tocados. Seu sofrimento advém necessariamente do sofrimento deles. Como ela é o todo, o mal que ela sente se comunica às partes que a compõem” (Durkheim, 1988, p. 229).
Neste sentido, uma mente inquieta ou criativa que se insere nas possibilidades do encontro com o todo formado pelas partes, e entre elas, as relações da matemática com a psicologia, a física com a consciência, o pensamento com as células, poderiam ser interpretadas como uma realidade distorcida. Isto fica claro na história humana ao apontar algumas personalidades, consideradas loucas como, Leonardo da Vinci, Albert Einstein, Isaac Newton, Nikola Tesla, Michelangelo, Freud, entre outras, que contrariaram os padrões impostos pela racionalidade e se destacaram com suas descobertas, cravando os seus nomes na história humana.
É um grande desafio para a ciência médica e a psicologia, compreender o paciente desorganizado psiquicamente quando surge a “psicose”. Nota-se que a percepção, atenção e memória se alteram e refletem na postura física e no comportamento verbal do paciente. A sua autoimagem se distorce, dificultando a compreensão do que se passa com ele. É importante a atenção da família ou de um responsável no acompanhamento do paciente, exigindo de todos a observação acurada do seu comportamento.
A ruptura da vida social, familiar e do trabalho pode ser consequência do surto psicótico, favorecendo o isolamento e a apresentação de comportamentos estereotipados. Segundo observações clínicas, a psicose pode ser considerada a psicopatologia que mais favorece a desorganização cognitiva, afetiva e comportamental, pensamentos intrusos e incontroláveis que invadem a mente, afetos distorcidos provocando frieza nos contatos humanos e comportamentos que se estendem para a fuga ou esquiva dos sentimentos de perseguição.
Ao observar, por uma abordagem sistêmica, a esquizofrenia poderá surgir no contexto familiar como uma grande decepção. A família geralmente cuida com todo o carinho, de seus filhos com expectativa nas relações humanas, no trabalho, na vida social, na aptidão profissional, na vida afetiva, e torna-se frustrada diante do aparecimento da doença.
A esquizofrenia pode ser considerada sinônimo de psicose, causando espanto a quem convive com o paciente, pela grande mudança comportamental e a perda do contato com a realidade ambiental e pessoal. Observa-se, no comportamento geral, comprometimento em vários campos, entre eles, as funções cognitivas se alteram com o pensamento e as interpretações dos acontecimentos que surgem como delírio e/ou alucinação. No delírio, quando o paciente transforma, em sua interpretação, uma cadeira em um elefante ou na alucinação, quando a mente cria um objeto sem a presença dele. É comum, ouvir, ver, sentir cheiro, gosto por algo que não esteja presente no ambiente de estímulo. Na motivação fica evidente a apatia e lentidão em tarefas que eram simples, o cuidado com a aparência física, o desleixo se aflora com o descuidado da higiene, vestuário, alimentação e desorganização do ambiente.
É difícil apontar uma causa específica para o surgimento da doença, alguns estudos desenvolvidos pelos pesquisadores (Dickerson & Lehman, 2011), apresentam a tese que as bases biológicas, anormalidades em domínios psicológicos como a percepção, o pensamento e a emoção também são características nucleares da esquizofrenia.
Foi possível determinar indícios de que existe uma relação evidente com os fatores genéticos, cerebrais e ambientais, esta é uma afirmação que remete o observador indagar sobre a história da doença na família. Segundo a conceituação de distúrbio mental, fornecida pelo DSM-V:
“Um distúrbio mental é uma síndrome caracterizada por distúrbios clinicamente significantes na cognição individual, regulação emocional ou por comportamentos que refletem disfunções em processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacente ao funcionamento mental” (APA, 2013, p. 20).
A partir desse olhar, temos os déficits na formação da personalidade e especificamente na atenção, percepção, memória e tomada de decisão, limitando a liberdade de pensamento, sentimento e comportamento do paciente.
1.2 Loucura e as ideias do filósofo Michel Foucault
Ao buscar referência na filosofia, o maior destaque é o psicólogo e filósofo Michel Foucault, que nasceu em 1926 e viveu até 1984. Seus pais tinham formações acadêmicas e uma condição financeira bem avantajada. Foucault sempre teve uma curiosidade com os acontecimentos políticos e sociais e a curiosidade em entender a loucura era quase uma obsessão. Muito curioso e observador, no começo da vida adulta passou por uma crise de identidade e desenvolveu uma depressão profunda. Com a sua internação e aos cuidados dos profissionais veio a se apaixonar pela psicologia e ao sair da instituição psiquiátrica, investiu em sua formação acadêmica.
Em época de estudante já se envolvia nos movimentos sociais com críticas relacionadas com o racismo, as penitenciárias, a educação, a psiquiatria tradicional e as questões relacionadas ao preconceito da homossexualidade.
Foucault era muito estudioso e dedicado às pessoas. Questionador, orador e seguro em suas ideias. Mesmo sendo psicólogo se motivou com o saber da filosofia e atuou como clínico em penitenciárias e hospitais. Palestrou em várias partes do mundo e por volta de 1970 veio ao Brasil em plena época da ditadura para desenvolver experimentos mentais. Sua voracidade pelo intelecto o estimulou a escrever muitas obras e os destaques podem ser atribuídos aos títulos, Doença Mental e Psicologia em 1954, História da Loucura em 1961 e Doença Mental e Psicologia em 1962.
Sabe-se que o ser humano por natureza é curioso e alguns fenômenos quando acontecem de forma inusitada e repentina atrai a observação acurada do expectador. A loucura no final da Idade Média era a atração dos homens considerados racionais, estes atribuíam loucura a todos que ficavam à margem da sociedade, possuíam alguma diferença no corpo ou na forma como interpretavam o mundo. Eram marginalizados, indigentes, pensadores, vagabundos, sodomitas, blasfemos, prostitutas, etc. Quem nos séculos XVII e XVIII não conseguiam, por vários motivos, participar da sociedade burguesa, eram internados nas Instituições para loucos. Michel Foucault, como um ser sensível à humanidade, tinha uma aversão pelo poder de vários setores da sociedade e com base nisto, percebeu uma ruptura entre razão e desrazão.
Como distinguir, numa ação prudente, se ela foi cometida por um louco, e como distinguir, na mais insensata das loucuras, se ela pertence a um homem normalmente prudente e comedido? (Michel Foucault, em ‘História da Loucura’).
O conceito de loucura na atualidade ficou nas mãos dos médicos, psiquiatras e psicólogos e muitas vezes buscando referência a uma ciência fragmentada por uma visão cartesiana, tendo como base, principalmente, uma concepção moralista. Com isso, fica claro que a razão sobrepõe a loucura legitimada pela ciência. E partindo dessa premissa a indústria farmacêutica aplaude de pé essa atitude, pois as oportunidades de oferecer uma droga (remédio) milagroso para enquadrar o sujeito no contexto social passa a custar muito dinheiro, dando lucro e sustentando uma máquina que já domina todos os continentes do globo. Para constatar a veracidade desta afirmação, basta olhar as pessoas que conhecemos e perceber a incidência de dependência dos psicotrópicos. Hoje, já existe remédio para quase toda a demanda psíquica, ansiedade, angústia, tristeza, euforia, insônia, depressão, desânimo, apatia, desatenção, demência, inteligência, etc.
2 Estresse e medicamentos
Não podemos ignorar um fenômeno que ocorre atualmente de forma exagerada, o “estresse” e os hormônios do estresse provocam uma alteração no sistema imunológico e sabe-se que quase todos os seres humanos estão infectados por germes que causam doenças. Assim, quando o nosso sistema imunológico está em equilíbrio não desenvolvemos doenças e ao contrário quando nos sentimos fragilizados a doença surge. No estresse o comportamento observável é de fuga ou enfrentamento de maneira inconsciente e isto afeta como interpretamos a nossa realidade, deixando-nos com atrofia na cognição. É importante a reflexão: De onde surge o estresse? Da loucura ou do surto psicótico?
O “ter que” corresponder a uma expectativa da comunidade, família, sociedade nos deixam infelizes e estressados? E hoje? Podemos ser considerados todos loucos em uma sociedade que exige ganhar dinheiro para manter nossos vícios em bens de consumo, aparência física e medicamentos para o alívio do estresse ou síndrome de burnout? É possível desenvolvermos uma articulação do que vivemos hoje com as ideias de Foucault, quando diz que a sociedade aprisiona o homem nas ideologias educacionais, institucionais dominadoras com o propósito de domesticar o comportamento humano e sequestrar a sua liberdade pessoal? Não seria por meio da educação a maneira mais evidente de aprender a pensar, a ser livre com base na autonomia vocacional, política e pessoal? Como entendemos a máxima dele quando afirma:
“Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo.” (Michel Foucault)
3 Conclusão
Como podemos entender a inquietação desse pensador, Michel Foucault, que nasceu na França no século passado e viveu na pele o lado da simplicidade e da burguesia, que influenciou grandemente a filosofia e a psicologia do século XX e permanece influenciando atualmente de forma significativa? Como podemos entender a loucura ou o surto psicótico? Quais são as suas respostas?
4 Sugestões de referências
American Psychiatric, Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. Washington: APA, 2013 (APA) . https://www.ex-isto.com/2022/07/loucura-experiencia-tragica.html
Dickerson, F. B., & Lehman, A. F. (2011). Evidence-based psychotherapy for schizophrenia: 2011 update. Journal of Nervous and Mental Disease, 199(8),520-526. DOI:http://dx.doi.org/10.1097/NMD.0b013e318225ee78 [ Links ]
Durkheim, E. Les règles de la méthode sociologique. Paris: Flammarion, 1988.
CASTRO, Edgardo. Introdução a Foucault. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2014.
FOUCAULT, Michel. Doença Mental e Psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Universitário, 2000.
FOUCAULT, Michel. História da Loucura: na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 2017.
MACHADO, Roberto. Foucault, a Ciência e o Saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. https://www.ex-isto.com/2022/07/loucura-experiencia-tragica.html .

Adriano Nicolau da Silva, Psicólogo e Psicoterapeuta. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. E-mail: adrins@terra.com.br. Colunista do Factótum Cultural.
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