por Leandro Karnal

Chico Buarque escreveu a canção “Pedro Pedreiro” e explorou a ideia de que esperança e desesperar têm a ver com o radical esperar.
Quem espera algo ou se frustra ou enriquece.
Na música, Pedro termina
“esperando enfim nada mais que além que a esperança aflita, bendita, infinita do apito do trem”,
que o levaria para longe, de volta ao passado, para um sonho de vida melhor, ou simplesmente para casa depois de mais um dia de trabalho.
Talvez essa seja nossa condição humana. Logo, como viver sem esperar?
Os franceses costumavam dizer que “tudo passa, satura, quebra e… é trocado” (Tout passe, tout lasse, tout casse et tout se remplace). Ou seja, a transitoriedade é a tônica de nossa existência.
Nada durará para sempre. O problema incontornável de hoje será esquecido ou se apequenará diante do desafio de amanhã.
A alegria passará pelo mesmo efeito. Isso não é maldição, mas bênção.
Imagine se uma tragédia se eternizasse? Ou se uma felicidade fosse perene? Como apreciar a felicidade se ela fosse imorredoura? Como ter perspectiva na crise se ela fosse imutável?
La Rochefoucauld não estava equivocado em nos lembrar de que a desesperança é uma gêmea siamesa da expectativa, do otimismo.
Tampouco a Bíblia deixou passar essa constatação, e o Eclesiastes (9,4) registra: “Ora, para aquele que está entre os vivos há esperança (porque melhor é o cão vivo do que o leão morto)”.
Trata-se de um otimismo realista, de uma virtude de consciência do fim e de necessidade de vivenciar as coisas boas por enquanto.
Ora, se tudo passa, aproveite enquanto não passa.
Sobreviveu à epidemia atual? Outra lhe aguarda.
Resolveu a questão econômica no momento atual? O vazamento financeiro encontrará outro ponto frágil no dique da sua resolução.
Um filho está bem agora? Outro trará uma notícia ruim.
São esses caminhos que nos irmanam com Macbeth e a vida se torna cheia de som e de fúria e sem significado.
Uma boa estratégia de vida talvez seja construída através do otimismo realista:
as coisas podem estar ruins e devem ser levadas em conta.
A consciência da finitude deve provocar desapego e não dor, pois o apego ao impossível eterno de qualquer coisa só faz sangrar a pele frágil do otimista.
Talvez nem tanto desapego como estimulavam estoicos, quase seres fora do mundo em que vivemos.
Porém, aceitar um pouco da oscilação como inevitável e manter a serena alegria em dias bons e a sabedoria tranquila em dias piores.
Sem oscilações inteiramente dependentes do que ocorre e sem desligamento do real.
Que não caiamos na tentação de obter cidadania permanente na ilha da depressão ou na da euforia.
Nenhuma é nossa, de fato.
Somos cidadãos da ponte, sempre.
Com a realista esperança infinita, sujeitos ao carnaval (no máximo, um por ano) e alguma furtiva lágrima.
Uma semana otimista para nós!
Abraços,
LK.






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