por Ana Daniele Holovaty Amaral

Ela se sente perdida diante dos acontecimentos. Diante do vazio ou da imensidão de sua alma.
Mas que alma? Alguns questionam a sua frieza para se livrar do peso que lhe fez chegar a tal ponto. Julgam com o olhar moralista e conservador mais presente do que nunca…Outros enchem de desculpas, tais como: ela sofreu, ela não fez terapia, era muito nova, era uma “Amélia”. Mas o fato é que nenhuma dessas alternativas faz sentido. A vida é mais complexa do que os diagnósticos sociais. E tudo tem um fim… isso é assustador: a morte! Seja de um ente querido, de um relacionamento ou de um sonho… tão difícil de lidar com a finitude tal qual lidar com a língua do povo. Com o olhar do outro que raramente força uma empatia.
No meio de tudo isso lá está ela: perdida entre culpa e orgulho. O orgulho vem da certeza de que fez algo para mudar uma situação que estava péssima. Que só fazia mal. A culpa é de não ter escolhido o caminho ideal para chegar no FIM escolhido. Segundo Heidegger, a culpa gera angústia e decadência, já que é nesse momento em que o ser humano se depara com a sua condição no mundo. Pois o caminho foi como um galho da roseira mais bonita e cheirosa de um jardim cravando seus espinhos na carne de quem quisesse podá-la. Metaforicamente falando, foi dolorido.
Ela está perdida também entre as escolhas… pois a profundidade do seu ser não comporta ideias rasas. Como afirma Bauman: “Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar”. Em meio ao caos existe um vulcão em erupção que quer mais… que busca conhecimento, que sabe que a cura é pular do abismo de uma vez e experimentar o novo… para assim RENASCER … no começo parecia que chorar e levar a vida adiante era fácil. Mas a humanidade é desumana. A beira de um ataque, de um colapso interno a pessoa tem que escolher, tem que tomar decisões práticas em relação ao que é material, tem que ser responsável pelas vidas inocentes. E assim de repente, quando se está firme em um propósito, vem uma lembrança, vem o Natal, vêm as possibilidades de um sonho que foi ignorado. Talvez a saída seja mudar de sonho. Se jogar do abismo pra renascer.
Começar tudo de novo não é tarefa fácil. O medo de chegar à mesma conclusão assusta. O medo de ser a rosa cheia de espinhos que machuca quem está ao seu redor é grande.
Diante da tomada de atitude somos julgados. Tudo é rotulado como virtude ou pecado! E a humanidade transita entre os dois diariamente, podendo analisá-los sob o ponto de vista espiritual e filosófico. O fato é que o pensamento ocidental filosófico ou cristão nos guia em relação a concepção do que é certo ou errado. Ninguém está na nossa pele. Mas a partir de algumas ações, geralmente aquelas que nos levam ao “fim”, definem o que é considerado pecado ou virtude. Não tem como dissociar o pecado ou virtude do pensamento cristão filosófico ocidental. Podemos exemplificar com a teoria filosófica baseada na obra de Santo Agostinho quando se refere ao livre arbítrio. Pois nossa sociedade tem esses parâmetros de ética e moral baseados na tradição cristã ocidental.
Ninguém quer saber das feridas, do contexto, das causas que levam à determinadas atitudes. Os exemplos dos rótulos em relação as ações das pessoas são aqueles julgamentos aos depressivos, aos suicidas, aos ansiosos, aos alcoólatras, aos workaholics, aos preguiçosos e principalmente às mulheres de uma forma geral: a solteira convicta, a iludida, que sofre violência, a separada, a velha, a gorda, a feia, a sem filho, a que abortou, a que teve muitos filhos, a feminista, a promíscua, a ciumenta, a que só pensa no trabalho, a dona de casa. São rótulos que afetam a vida dos outros, pois vivemos em um mundo onde os meios de comunicação permitem que todos opinem e saibam o que acontece na vida dos outros, mesmo que seja uma vida fictícia, criada com o objetivo de mostrar o que queremos ser, não necessariamente o que somos.
É… talvez ela chegue à conclusão que precisa ser mais egocêntrica… que às vezes ela pode frustrar as expectativas sem ficar preocupada, pois a expectativa é algo projetado na cabeça dos outros. Na maior parte do tempo deixamos a essência do nosso ser de lado para seguir os padrões sociais.
Ainda quando nos deparamos com a história do cotidiano contemporâneo percebemos que a intensidade assusta em épocas de relações líquidas. O ser humano tem pressa, tem compromissos. Tudo é rápido. Parece que as pessoas buscam algo mas não sabem bem o que é… algo breve. E essa brevidade só faz aumentar a velocidade que as coisas rumam para um fim, para uma ruptura, ou até mesmo para para a morte! Será preciso morrer quantas vezes durante a vida???
BIBLIOGRAFIA
BAUMAN, Z. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Trad. bras. de Márcia Cavalcante. Petrópolis: Vozes, 1993. Vol. I.

Ana Daniele Holovaty Amaral. Pós – Graduação em História e Sociedade pela UNESPAR.
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