por Leandro Karnal

Camille Monet em seu leito de morte (1879), Claude Monet.

Minha avó paterna, Edyth Hacker Karnal, nasceu no dia 12 de junho de 1904, em Porto Alegre, e estaria com improváveis 118 anos caso não tivesse deixado este mundo no ano de 1978.

Mas o que Dona Edyth pode trazer fora do círculo estreito dos que a conheceram?

Eu sei o aniversário dos meus falecidos avós. Meus pais também sabiam. No entanto, a geração depois da minha e os bisnetos da personagem em questão não a conheceram.

A data morrerá comigo.

No túmulo no cemitério de São Leopoldo, amarela uma foto com essas informações e duvido que algum bisneto saiba qual o lugar do sepultamento ou esteja disposto a gastar na manutenção dos locais fúnebres da família Karnal.

Sem pagamentos futuros de taxas, os ossos, talvez, sejam desalojados. Um despejo macabro de restos, com descendentes sem interesse.

Leitor, na sua família, quem (pleno de colágeno e usuário de TikTok) vai a cemitérios espontaneamente? 

Gostaria de fazer uma breve profecia: nos sistemas culturais e religiosos que permitem, deve crescer a cremação.

As cinzas podem ser jogadas em qualquer lugar. Túmulos imponentes estão fadados à fadiga de material.

Colocar a fotinho de vovó na lápide é condená-la a uma nova morte. A primeira é no dia do passamento; a segunda, ao longo dos anos seguintes.

Não! O tema do texto não é triste. Eu imagino essa ideia libertadora: a de que não seremos lembrados.

Haverá, claro, pranto imediato, saudades por algum tempo, homenagens e alguma melancolia. Mas e depois? O eterno e vasto continente do esquecimento é a parada final.

Porém, insisto, o tema não é triste.

Os medos existem, a ansiedade é real, sua dor lhe acompanha, a fama é importante em família, no emprego e nas redes sociais.

Todas essas angústias somem em um único dia.

A memória de tudo some nos anos seguintes. Em poucas décadas, nem sua data de aniversário fica.

Enfim, a liberdade para ser feliz.

As coisas feitas ou evitadas terão destino similar em algumas décadas. Apenas, tão somente, deveriam ter significado agora. Não se trata de “presentismo” permanente. Insisto na perspectiva da eternidade.

Portanto, quer usar aquela roupa? Quer declinar do convite chato para o almoço de domingo? Quer evitar a formatura do filho da prima com quem você tem pouco contato e que convidou por mera formalidade? Faça!

Dentro da lei e da ética, construa uma vida com a consciência do presente. Não trabalhe com a permanência: você deve ser feliz agora – antes de ser uma memória evanescente.

Por que esperar pelo momento ideal para ser mais livre? Tente agora!

A vida acontece hoje, não estamos em um ensaio.

Nunca cultive arrependimentos, apenas viva! Estimule relações genuínas, leia o que gosta, não prejudique ninguém e jamais viva pela cabeça de terceiros que também virarão pó absoluto.

Não deixe para se arrepender no leito final, viva cada momento. O futuro apagamento de tudo nos dá um poder imenso de tentar a felicidade.

Você morrerá. Eu morrerei.

O importante é antes disso. Depois? Quero que me esqueçam em definitivo. E que os poucos que se derem ao trabalho de ir ao velório percebam em mim o sorriso de uma vida que eu considerei significativa.

Nunca temi a morte. Tenho pavor é da vida vazia.

Minha esperança é no presente e não no próximo século. Lá, eu não existirei mais.

Que você tenha um final de semana cheio de bons momentos.

LK

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