por Leandro Karnal

A cauda do pavão macho encanta a humanidade há milênios. São tons hipnóticos de verde e de azul brilhante, como se mil olhos abertos nos desafiassem.
A ave é um símbolo nacional da Índia e conduz deuses como Escanda (Kartikeya) na tradição hindu.
Além disso, foi gravado em tronos por toda a Ásia como símbolo da realeza.
Uma coisa é certa: seja em versão barroca intensa ou minimalista moderna, o pavão parece ter um impacto estético insuperável.
A beleza do animal, é claro, seria alvo de detratores.
Sempre fomos duros com glórias alheias. Nessa perspectiva, o pavão virou símbolo do orgulho e da vaidade.
O verbo “pavonear-se”, por exemplo, implica ostentação.
Os animais são espelhos antropomórficos das nossas dores e anseios.
Fazemos constantemente essas analogias: a abelha é trabalhadora; a águia, corajosa; a raposa, astuta e o pavão… orgulhoso.
Será?
Vamos a algumas histórias de Esopo:
O pavão foi ligado à rainha dos deuses na Grécia, Hera.
Ao ouvir o canto mavioso do rouxinol, a ave foi se queixar à sua protetora.
– Como uma ave pequena tinha uma voz tão extraordinária?
A lenda narra que a deusa desconversou:
“Não se pode ter tudo!”
Em outra cena, ao reivindicar o título de rei das aves, o pavão teria invocado sua beleza.
O corvo indagou se as garras do vaidoso emplumado seriam fortes e suficientes para defenderem o reino do ataque das águias.
Ainda outra: ao ver a cauda orgulhosa do pavão aberta, a garça perguntou se suas asas eram fortes para que ele voasse no alto céu.
O pavão, sabemos, voa como as galinhas: de forma curta e desajeitada.
Nas três historietas, a mesma característica: sim, reconhecemos sua beleza. Porém, há algo em você que pode ser atacado: a voz, os pés ou a força das asas.
Como eu tenho algo em mim que pode lhe ser superior, reconheço que nós dois temos uma carência: o que você tem eu não tenho e, como defesa, eu me agarro ao que parece melhor em mim.
Sem querer, as narrativas tornam-se não apenas fábulas morais (cuidado com a vaidade), porém, igualmente, psicanalíticas (sua crítica pode ser um espelho das suas carências).
Quase sempre as narrativas tradicionais indicam a humildade como virtude suprema.
Talvez tenham sido compostas para aquietar ambiciosos, calar pessoas insatisfeitas ou invocar uma ordem preestabelecida e imutável.
Pior: o desejo de mudança é ruim em si.
Sim, a cauda do pavão incomoda. Seria, ele, orgulhoso?
Claro que se trata de uma projeção nossa.
O leão não manda nos animais porque teria sido sagrado rei. A cobra não é traiçoeira, nem o hipopótamo, “gordo”.
São animais bem adaptados a um meio e com os recursos que a evolução lhes conferiu.
O ser humano projeta seus medos e anseios para os degraus zoológicos e vegetais que contempla.
Existem muitas pessoas vaidosas, mas a questão do orgulho alheio é sempre incômoda.
Desagradável quem proclama suas virtudes reais ou exageradas em microfones potentes.
No entanto, entendemos também que mesmo as virtudes de alguém que seja humilde nos incomodam.
O mundo não é justo.
Existe muita gente linda, brilhante, rica, agradável e, ainda por cima, carismática.
Ao menos a mim, ave pequena, sozinho em meu quarto, esmagado pelo esplendor alheio, restou-me o pífio consolo: “A voz? Inferior à do rouxinol”.
Uma boa semana.
LK.






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