Sinceridade é uma virtude.

Dizer a verdade é algo louvado por filósofos e por teólogos: garante o caminho da razão e a estrada do céu.

Mentirosos são, universalmente, condenados.

Quem pensa uma coisa, e diz outra, é hipócrita – gritam os povos, do Tietê ao Potomac, do Rio Amarelo ao Tâmisa.

Duas caras, dissimulado, falso, desleal: não faltam adjetivações para descrever o horror que temos à mentira.

Todos devem dizer a verdade. Será?

Em primeiro lugar, a mentira abunda onde existe o poder.

Começamos mentindo para pais e professores porque queremos algo que alguém acima de nós não concede, ou porque desejamos nos desculpar por alguma situação.

Iniciamos cedo no caminho da inverdade.

Depois de formados em deslizes com o correto em casa, passamos para o ambiente pedagógico e chegamos ao trabalho.

Mas o que possuem em comum pais, professores e chefes?

Sendo fonte de algum poder e podendo tomar decisões que contrariem meus interesses imediatos, acabam criando, com seu poder, o solo onde germinará a mentira.

Reflitam: Deus, Todo-Poderoso, não mente. O demônio, sem a onipotência, é o pai da mentira. Portanto:

Quanto mais poder alguém tem, mais sincero pode ser.

A mentira atropela o que é correto e, ao mesmo tempo, ataca o poder. E aí está a raiz do sucesso da falsidade.

Mas poderosos também mentem (e muito).

Só que o argumento precisa ser matizado: todos faltam com a verdade, porém, quem tem comando pode punir a mentira alheia.

A liberdade de ser sincero é um privilégio que a Revolução Francesa não conseguiu instituir como direito universal.

No caso da França, os burgueses sucederam aos duques, e os presidentes, aos reis.

O poder perdeu pompa e se manteve imune aos ataques.

O mundo contemporâneo acrescentou punições extras aos mentirosos.

Voltaire, no Antigo Regime, foi condenado à Bastilha (a prisão parisiense para onde eram levados os inimigos do rei) por dizer o que pensava. Flaubert e Zola foram processados no mundo pós-Revolução.

A nova Bastilha é o “cancelamento”.

O poder parece validar a capacidade de ser sincero.

Pessoas “pequenas”, se forem ousadas nas palavras em um bar, podem causar danos aos dentes.

Funcionários podem perder o emprego e alunos podem ser reprovados.

A internet permitiu a uma rede maior cometer mais verdades – porém, com o ônus de ser amparada pelo anonimato ou pela multidão de opiniões.

“Sincericídio” ainda existe nas redes, nos casamentos e nas escolas.

A cultura do cancelamento se consolidou no mundo virtual, e tem “eficácia comprovada”. 

“Deixar de seguir”, “bloquear”, fomentar comentários apedrejadores contra algum usuário: tudo funciona. 

Mas, também, consiste em uma confissão de fraqueza: só posso ser significativo se dezenas ou centenas de milhares concordarem comigo e também cancelarem essa pessoa, esse perfil.

Sozinho, continuo não valendo nada. Preciso de um exército ao meu lado. Sou fraco como uma bactéria: a infecção depende do volume.

De novo: poderosos mentem; porém, podem condenar.

Você, Neemias, consegue imaginar um mundo no qual você pudesse dizer tudo, absolutamente tudo o que você pensa, sem limites ou códigos? Esse mundo do domínio total da verdade seria o céu ou o inferno?

Apenas sei que não seria a Terra.

Um excelente (e sincero) fim de semana.

LK.

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