por Ana Daniele Holovaty Amaral

Nada mais propício do que falar em democracia perto do bicentenário de independência do Brasil. 

Sim, nosso país completa duzentos anos de existência mas não necessariamente a totalidade desse tempo como uma democracia e algumas reflexões podem e devem ser realizadas nesse momento, os processos de permanências e rupturas pelas quais o Brasil passou, por exemplo o que mudou, e como se deram essas transformações, para assim projetar os ideais futuros dessa nação. Nesse sentido a História, tal como ciência, tem papel fundamental para essa análise, pois é onde percebe-se o nível de consciência histórica da população e as possíveis atitudes a serem tomadas. 

Em relação às mudanças, constatamos que o processo de independência foi um tanto lento mas mesmo assim não provocou mudanças significativas para a população em geral no primeiro momento. Pois quem promoveu a independência foi a mesma elite que controlava o Brasil colonial. Portanto, o mesmo modelo de governo e o mesmo modelo econômico perseveraram: a Monarquia e a escravidão continuaram fazer parte do cotidiano dos brasileiros. Para o povo nada mudou e esse, de certa forma, assistiu às mudanças políticas como “bestializados” como afirmou José Murilo de Carvalho quando se refere à mudança do Império para República… 

Aparentemente esse processo foi pacífico… A História oficial tentou criar esse ideal de identidade nacional do brasileiro como ser “cordial”, conforme afirma Sérgio Buarque de Holanda se referindo à construção de um mito sobre o tipo de indivíduo idealizado pela elite nacional. Mas analisando os fatos históricos da época, percebemos a existência de alguns conflitos de insatisfação popular que foram amplamente reprimidos. 

Ao contrário do que a história tradicional aponta, houve muitas lutas pela independência em todo o território brasileiro. Em várias províncias o governo colonial português não queria abrir mão do poder… As lutas que aconteceram se deram entre conservadores lusitanos e entre grupos de intelectuais e políticos com interesses liberais que se aproveitavam da insatisfação popular para promover revoltas e motins inflamando a população. Ou seja, não é que o povo aceitou tudo de forma pacífica, a realidade é que ou a população não tinha a consciência de classe necessária para lutar por seus direitos ou os que faziam eram duramente reprimidos. 

Resultado: nasceu um país mas a democracia ainda estava longe de ser alcançada!!! Infelizmente está ainda longe de ser alcançada, pois estamos vivendo tempos sombrios, onde o bolsonarismo revela que o país não evolui no debate político, pelo contrário: houve um retrocesso carregado da terrível constatação de que “ o inimigo mora ao lado”, isto é, o seu parente, o seu vizinho , o seu amigo tem pensamentos reacionários ou apolíticos a ponto de apoiar um governo incompetente, corrupto e fascista. 

O pensamento reacionário é um traço claro do brasileiro… 

Antropologicamente falando, o brasileiro é conservador devido ao modelo sócio econômico adotado desde a sua colonização (patriarcalismo, monocultura e escravidão). O problema se situa na permanência desse pensamento até os dias de hoje. 

Outro problema enfrentado é a falta de consciência histórica e social… A maior parte da população vê a política como um tabu… Raramente os grupos sociais discutem política… Quando o fazem, ficam no mérito do humor ou da ofensa somente… a discussão nem chega no campo das idéias… Os adolescentes e jovens não são instigados a pensar como cidadãos portadores de direitos e deveres… a maior parte segue os modismos dos influenciadores digitais vivendo em uma alienação profunda em meio a selfies e tik toks. Essa ideologia é fruto de anos de repressão e de uma imposição midiática de valores pautados na política do “pão e circo”… Ou seja, a supervalorização do que é supérfluo… fruto da sociedade de consumo imposta pelo capitalismo selvagem… 

No âmbito local vivenciamos tais situações na prática de forma corriqueira. É comum ver políticos aderirem ao supérfluo, ao que aparece, ao que embeleza como forma de angariar votos… O investimento em educação, por exemplo, não tem a finalidade do ensino aprendizagem de fato. A classe política está preocupada em fazer coisas que apareçam: dão aparelhos tecnológicos mas não investem nos meios de utilizá-los; investem em infraestrutura mas deixam o aspecto humano totalmente de lado… Esse é só um exemplo… As pessoas em sua maior parte, não verificam se estamos crescendo em qualidade de vida, se o IDH está subindo, se há emprego para todos, se o salário pago aos funcionários e demais trabalhadores de um município é digno… no geral elas acreditam na propaganda… Logo se pressupõe que essa prática é eficaz. Eficaz para a manutenção da mesma elite no poder desde antes da formação do País como nação. As práticas oligárquicas da política coronelista do início do século XX se perpetuam com novas táticas… Se no início do século a violência física era o principal instrumento de coerção da população frente aos desmandos políticos, atualmente as fake news e propaganda em redes sociais, bem como os mecanismos de controle por algoritmos são as táticas mais utilizadas. 

Portanto, a reflexão referente à situação brasileira é indispensável, ainda mais nesse período em que o rumo do país será decidido de forma democrática através de um processo eleitoral. É nessa hora que percebemos a funcionalidade da consciência histórica. O protagonismo da História vai revelar se o brasileiro aprendeu com os erros do passado para projetar um ideal de nação mais justo e democrático para um jovem país bicentenário. Que o ufanismo e nacionalismo do povo brasileiro seja voltado para o crescimento de uma nação que contemple o direito de todos os cidadãos!!! Agora é a hora!!! Como diria Cazuza em sua música “Brasil”, lançada pelo compositor em seu álbum “Ideologia”, de 1988, e regravada por Gal Costa no mesmo ano. 

“Brasil, mostra a tua cara!/Quero ver quem paga/Pra gente ficar assim!” 

CARVALHO, José Murilo de. “Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi”. São Paulo: Companhia da Letras, 1987. 

HOLLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. 26 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Ana Daniele Holovaty Amaral. Pós – Graduação em História e Sociedade pela UNESPAR.

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