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Autoajuda: o Bem, o Mal e a (minha) Hipocrisia

Por Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho

Eu odeio o gênero literário “autoajuda”. Odeio quando acesso as listas dos livros mais vendidos no mercado literário brasileiro e me deparo com títulos como “Mais esperto que o Diabo”, “Do mil ao milhão” ou “8 caminhos que levam à riqueza”. 

Ultimamente, a grande maioria dos sucessos nesse gênero literário são relacionados a finanças, sejam ensinando sobre empreendedorismo e táticas de negócios ou hábitos que (não) podem enriquecer o leitor. Porém, existe outro tipo de livro de autoajuda também amplamente consumido (o queridinho da minha geração, que rechaça o terraplanismo e outras pseudociências, mas adora um papo de astrologia): os livros de autoajuda esotéricos. 

O motivo de minha indignação? Talvez esteja exagerando, mas em minha experiência, a grande maioria destes livros prega uma ilusão. O autor, normalmente, é um empresário muito bem sucedido ou algum tipo de guru espiritual iluminado, e o livro é vendido como o manual de instruções para que você atinja as mesmas conquistas que os autores, o que não é possível: afinal, o empresáro não é bem sucedido coisa nenhuma. Herdou milhões de seu papai e enriqueceu ainda mais vendendo curso sobre se tornar rico do 0, algo que ele nunca precisou fazer. O guru, muito calmo e sereno no Instagram e no curso do Hotmart, muito provavelmente é um manipulador profissional que encontrou uma maneira fácil de fazer dinheiro ao fingir que possui um conhecimento ancestral sobre a existência humana. Não é possível ser como eles, pois eles mesmos não são como se apresentam. Ademais, o conteúdo dos livros é, invariavelmente, raso e superficial, utilizando-se esparsamente de dados científicos sem muito contexto e de sugestões algumas vezes impraticáveis, outras vezes ineficazes. 

“Ok, você já deixou claro o Mal da autoajuda. Cadê o Bem e a Hipocrisia?” Caro leitor, me prolongo no Mal pois é natural do ser humano o prazer da reclamação. Concluída minha rabugice, sigo o raciocínio. 

A Hipocrisia da autoajuda não vem do livro em si, mas de mim mesmo, e precede o Bem da autoajuda. Essa hipocrisia nasce em uma noite de chuva forte, na casa dos meus pais, que estou visitando por ocasião do feriado. Ela se materializa pois, após assistir minha vida emocional desmoronar perante meus olhos nos últimos dois meses, sinto enfim a força de vontade para reconstruí-la, ainda mais cuidadosamente desta vez. E para fazê-lo, recorro a um velho conhecido: “Os 4 compromissos”, talvez um dos mais clássicos livros de autoajuda. 

Sim, é um livro superficial, que tenta ser um manual de iluminação e, inevitavelmente, falha. Nada do que eu escrevi está errado. Mas é um livro que me traz conforto, me traz uma forma de enxergar de longe meus problemas e uma fórmula para resolvê-los. Nesse momento de angústia, é disso que eu preciso. No passado, esse mesmo livro já me ajudou muito a lidar com a ansiedade e a me sentir bem comigo mesmo. Não resolveu meus problemas, longe disso, mas me ajudou a entendê-los melhor. Não fez o que se propôs a fazer, me levar à iluminação, mas foi uma luz num período sombrio. 

Falemos do Bem, portanto. A autoajuda pode até ser uma ilusão, mas a vida é muito curta para ser sóbrio o tempo todo. Por vezes, é agradável e até necessário abrir um livro e sentir que ele te fornecerá todas as respostas e caminhos para que você se torne quem almeja ser. Muito provavelmente, isso não acontecerá, mas talvez esse livro possa te motivar a chegar mais perto de seu objetivo, como é o meu caso com “Os 4 compromissos”. Talvez, uma ou outra dica financeira te ajude a alavancar seu negócio. Talvez, uma ou outra dica esotérica me ajude a chegar mais perto da iluminação. 

Quanto aos autores… Esses sim são ajudados pelos livros de autoajuda. Lançam um livro com dicas genéricas, e compram uma mansão. Ao lançar a sequência desse livro, compram um helicóptero. Quem sabe no volume que formar a trilogia eles não comprem um Iate. E quer saber? Tanto faz. Outro dia eu me indigno com isso. Agora, só quero abrir um livro de autoajuda e me sentir espiritualmente aceso, sentir meu destino sendo escrito por minha destra, sentir um caminho etéreo se revelando à minha frente.

Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho, Estudante do terceiro ano do Ensino Médio e escritor jornalístico.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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