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A Escola do Recife e seu desenvolvimento: uma introdução

Por Bárbara Caroline Lendras

História - UFPE

Muito se fala sobre a produção textual de diversos países, em especial, no continente europeu, lugar considerado berço de toda uma herança filosófica e de uma imensa pluralidade de filosofias que até nos dias atuais são reproduzidas, interpretadas e repetidas, indo desde Heráclito, Platão, Boécio, Maquiavel, Kant, Nietzsche, Adorno à Foucault. Entretanto, pouco se fala da produção de textos e teorias filosóficas brasileiras, assim como em várias outras partes do mundo, desconsiderando completamente uma filosofia latina, africana ou asiática, por exemplo.

Reconhecendo esse evidente apagamento, e por vezes, silenciamento das mais distintas culturas e pensamentos filosóficos, o texto que o leitor acompanhará agora busca romper com esta bolha criada pelo mundo ocidental e aquela perspectiva de mundo única e limitada divulgada  para toda a civilização desde seus primeiros anos de vida até o seu fim, por meio de uma apresentação feita de forma breve acerca de uma corrente de pensamento genuinamente brasileira e, em certa medida, fora do paradigma imposto por este mundo: a Escola do Recife.

Nos anos 1860 e 1880, palco de um denominado “surto de ideias novas”, a Faculdade de Direito do Recife foi berço de um movimento intelectual, cultural, crítico, filosófico, poético, sociológico, e jurídico, o qual contava com diversos nomes, tais quais: Sílvio Romero, Tobias Barreto, Artur Orlando, Graça Aranha, Clóvis Beviláqua e Martins Júnior. Sendo Barreto, uma espécie de líder para a Escola.

Juntos, o grupo de pensadores buscava, acima de tudo, um nacionalismo, uma certa “valorização nacional” e em dar pensamentos autônomos de brasileiros para o povo brasileiro, na medida em que também procurava  construir uma reação aos acontecimentos da época, como por exemplo, a importação de ideias não condizentes  com a realidade do Brasil. Nessa ambição, para mudar e transformar o indivíduo brasileiro, o movimento se dedicava a estudos e interpretações históricas, antropológicas, sociológicas, políticas e culturais do país, produzindo assim, autênticos estudos sociais brasileiros.

Inicialmente, para além do estudo de brasileiros para brasileiros, o imenso e heterogêneo grupo da Escola do Recife buscava também compreender e desenvolver filosofias e teorias como “culturalismo”, “monismo evolucionista”, estética e liberdade humana, darwinismo, neokantianismo, positivismo, liberalismo e “ecletismo espiritual”, como mais uma outra reação para os acontecimentos da época, neste caso, uma relutância para com a monarquia, que na perspectiva deles, atrapalhava o progresso.

Entretanto, apesar do interesse em comum, cada um dos integrantes da Escola do Recife seguia sua própria forma de pensar. Sílvio Romero acreditava em um “culturalismo sociológico”, junto de filosofias como o positivismo e o evolucionismo; Clóvis Beviláqua era simpatizante de teorias como a de Stuart Mill e Liettré; Euclides da Cunha, mais um dos diversos participantes do movimento, era adepto de um “evolucionismo mecanicista” e do pensamento filosófico de Comt; Graça Aranha era estudioso da literatura e crente em uma “ciência fragmentária”, cujos principais traços estavam em ser analítica e divisível; Martins Júnior se dedicava à poesia; e por fim, Tobias Barreto, podendo ser considerado a figura mais rebelde desse movimento e que mais incitava os demais para discussões e debates, ao mesmo tempo em que arranjava conflito com padres,  se encaminhava para um “nacionalismo cultural” e um “monismo dualista”.

Dois outros membros desta escola que não foram citados anteriormente, mas que também merecem a devida atenção, são José Higino e João Vieira, pois entram em contato imediato com Tobias Barreto. Higino se ocupava de estudos acerca do domínio holandês que ocorreu no Brasil, como também do positivismo e posteriormente do evolucionismo de Herbert Spencer, assim como fizeram muitos dos jovens da Faculdade do Recife. O interesse nessas investigações levou o pensador a criar pontos de contato e de atrito com o rebelde Tobias Barreto, pois este discordava fortemente da linha de raciocínio proposta por Spencer, que ao ver dele, somente se assemelhava ao positivismo, corrente filosófica na qual Barreto passou a discordar durante seu percurso pela Escola. Essas discordâncias e discussões perduraram até o fim da vida de Toias, que, com o passar do tempo, foram se tornando cada vez mais polêmicas e menos corteses. E João Vieira, pode-se considerar que tomou um caminho de jurista, simpatizando-se pelo direito penal e assim como Higino, pelo evolucionismo pregado por Spencer.

Importante considerar que esse grande interesse que muitos dos membros da Escola do Recife sentiam acerca das teorias da época, tais como o evolucionismo, o positivismo e o espiritualismo, seriam abandonadas por eles posteriormente, assim como fez Tobias citado acima, dado de que essas correntes tentavam se sobressair das demais, e, consequentemente, cobrir em sua totalidade os estudantes da Faculdade de Direito do Recife, o que ia em total desacordo com as ideias do movimento. Exemplos desse abandono pode ser visto inicialmente em Artur Orlando, que em meio às posições adotadas na época pelos seus companheiros do movimento, percebeu certa incompatibilidade vindo das mesmas, o que fez o autor se aprofundar em uma concepção de Filosofia enquanto Epistemologia. Enquanto que em Tobias, novamente, buscava o renascimento da metafísica, que havia sido dada como morta pelo positivismo, ao mesmo tempo em que desenvolvia o ser humano enquanto consciência, e a forma como essa espécie se relaciona com a própria cultura e sociedade, aprimorando cada vez mais o seu “culturalismo”.

Em  Clóvis, o que pode ser visto, com o passar da sua estadia na Escola, foi de que este deixou de ver a Filosofia como ciência, para aceitar de que ela era uma “recapitulação”, um “extrato”, que completava, unia e simplificava todas as demais ciências, agindo de forma muito mais profunda e ampla, entretanto, menos minuciosa, que todas as ciências reunidas em um só lugar.

Depois da morte de Tobias, os demais integrantes do movimento foram incumbidos de levar para frente as ideias do autor, o que fez o Norte do Brasil ser salvo da predominância do positivismo. Reflexos desta resistência poderia, mais tarde, ser visto na Bahia e no Ceará, e posteriormente, atingindo em pequenas proporções o Rio de Janeiro, este sendo liderado e combatido por Sílvio Romero. Porém, mesmo com todos esses esforços da Escola e todo o avanço de seus estudos e investigações, que contribuíram mais para frente com o avanço das ciências sociais brasileiras, não puderam evitar a vitória do Comtismo sobre o país na época.

Com esta breve apresentação desse movimento, de importância e relevância inquestionáveis, espera-se que em certa medida, o leitor tenha vislumbrado um grupo composto por pessoas com uma imensa força de vontade para romper com os paradigmas da época, usando de toda sua rebeldia e arsenal teórico em busca de uma vitória perante os pensamentos dominantes que cercavam o Brasil de 1870-80. Filósofos que não somente ficavam nas teorias, mas que assumiam posições políticas, lutavam, por exemplo, pela abolição da escravidão e pelo direito das mulheres, e que embora, mesmo que em sua caminhada pudessem vir futuros erros e obstáculos, a resistência em sua essência permanecia forte em cada um dos membros desta Escola.

Espera-se também, que o leitor tenha percebido como se pode romper com o mundo ocidental, de que nele pode-se ver brechas para grandes mudanças de pensamento e de perspectivas humanas. E que mesmo que suas teorias filosóficas ainda sejam usadas como base para estudos e investigações, se possa ir além disso, de que esses exames não se tornem mera reprodução e repetição de suas ideias, que eles avancem e evoluam para que possam ser adaptáveis à realidade em que se está inserido, deixando suas filosofias ligadas ao contemporâneo, ao tempo de agora, para que assim, mudanças reais sejam possíveis e que ultrapassem salas de aula, universidade ou qualquer local de estudo, para que somente então, atinja e transforme o meio junto da sua população deslocada e estática ao mundo e a todos os seus eventos.

E, por fim, também se espera, que com este breve texto, o leitor tenha tido um pequeno vislumbre do poder de sempre estar se expandindo e evoluindo como ser humano, do quão grande é o ato de se reconhecer enquanto “sábio ignorante”, aquele que sabe que não conhece tudo, e por ter ciência disto, é de que sempre está aprendendo, pois sabe de que sua posição de aprendiz é permanente, e por admitir sua própria ignorância e constante aprendizado, se torna, enfim, um sábio presente no mundo.

Bárbara Caroline Lendras, Estudante de Filosofia UNESPAR.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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