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Quem foi o filósofo Álvaro Vieira Pinto?

Por Breno Augusto da Costa

lustração do busto de Álvaro Vieira Pinto. | Download Scientific Diagram

Alguns consideram Heidegger o “pastor do ser”. Descartes é reconhecido pelo cogito,fundamental para toda a Modernidade.  Por sua vez, Platão teorizou sobre um mundo das Ideias que exerceu grande influência no decorrer da história. Uma tese inovadora, um conceito apropriado e reapropriado no decorrer dos anos, um sistema que marcou toda uma fase de pensamento. São variadas as formas pelas quais alguém pode ser inscrito na história da filosofia. Nossa pergunta é: qual a contribuição do brasileiro Álvaro Vieira Pinto à filosofia? Como caracterizar sua produção, sintetizar seu aporte à comunidade humana pluriversal?

Nascido em Campos dos Goytacazes, em 11 de novembro de 1909, inicialmente, Vieira Pinto desenvolveu uma produção filosófica ligada ao helenismo. Sua tese de catedrático da Faculdade Nacional de Filosofia, atualmente absorvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, defendia que, no Timeu, Platão foi capaz de antever o princípio da inércia. Entretanto, é do ano 1956 suas reflexões mais autorais, quando ele proferiu uma conferência intitulada “Ideologia e desenvolvimento nacional”, que inaugurou o funcionamento do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), com texto publicado no mesmo ano.

O ISEB foi um órgão vinculado ao MEC e tinha como objetivo o ensino, a pesquisa e a divulgação das ciências humanas e sociais, especialmente a filosofia, sociologia, ciência política, economia e história, aplicando suas categorias para a compreensão da realidade brasileira e o aceleramento do processo de desenvolvimento. Em “Ideologia e desenvolvimento nacional”, Vieira Pinto defende quatro teses: 1) sem ideologia do desenvolvimento não há desenvolvimento nacional; 2) essa ideologia tem necessariamente de ser fenômeno de massa; 3) o processo de desenvolvimento é função da consciência das massas; e 4) a ideologia do desenvolvimento tem de proceder da consciência das massas. Nessa obra, ele também propõe a filosofia do desenvolvimento como disciplina filosófica autônoma, que contribui para examinar a realidade brasileira cientificamente e intensificar o desenvolvimento nacional.

Em “Consciência e realidade nacional”, Vieira Pinto examina as formas através das quais uma consciência coletiva apreende sua realidade nacional correspondente. É desta obra a conceituação de consciência ingênua e crítica, que foi fundamental para Paulo Freire, além da proposição de uma nova concepção de desenvolvimento. Para Vieira Pinto, desenvolvimento e subdesenvolvimento não são situações apenas econômicas, mas também existenciais, isto é, referem-se ao grau de humanização que determinada comunidade atingiu. Se a divisão do mundo foi em centro e periferia, defende o autor, que é conjuntural, a distinção dos povos em desenvolvidos e subdesenvolvidos é um aspecto que tem sido constante na história. Ele também defende que a liberdade é autenticamente vivida enquanto um processo objetivo de engajamento na libertação nacional, ao invés de uma faculdade subjetiva do ser humano.

Tal preocupação com a libertação levou-o a publicar, em 1962, o opúsculo “Por que os ricos não fazem greve?”. Trata-se de um texto fundamental para conceber as contribuições vieiristas à filosofia social, bem como ao debate revolucionário brasileiro. Em 1964, o Golpe Imperial-Militar fecha o ISEB e Vieira Pinto parte para o exílio. Vive por volta de um ano na Iugoslávia e depois vai ao Chile, retornando ao Brasil em 1968.

Em 1969, Vieira Pinto publicou uma obra sobre filosofia da ciência, intitulada Ciência e existência. Na qual defende que o cientista do país subdesenvolvido deve possuir uma formação crítica e engajado na superação do quadro de miséria que constitui a realidade. Desse modo, a atividade científica é uma prática derivada da situação do ser humano no mundo, que deve conhecer para sobreviver.

No decorrer da década de 1970, ele elaborou alguns manuscritos. Em 1982, foi publicada aquela que é sua obra mais divulgada: Sete lições sobre a educação de adultos, que conta com 16 edições até o momento. Ele faleceu aos 77 anos, no Rio de Janeiro, em 1987.

Postumamente, em 2005, foi publicado O conceito de tecnologia, obra em que  debate o conceito de técnica; as várias acepções de tecnologia, dentre as quais ele propõe a tecnologia como logos da técnica, ou seja, uma disciplina unificadora das reflexões sobre a técnica; cibernética; inteligência artificial; e a relação entre tecnologia e desenvolvimento. Em 2008, foi publicado o livro A sociologia dos países subdesenvolvidos. Em que o autor traz diversas contribuições à sociologia da ciência e à sociologia enquanto ciência crítica.

No decorrer das primeiras décadas do século XXI, diversas iniciativas têm redescoberto o pensamento vieirista. Destacamos a criação da Rede de Estudos Sobre Álvaro Vieira Pinto, que tem site próprio[1] e conta com diferentes recursos para a divulgação de sua vida e obra. Afinal, quem foi Álvaro Vieira Pinto? Ele foi o filósofo do desenvolvimento nacional. Não um simples desenvolvimentista, em sentido reducionista e pejorativo, como é chamado por críticos que não leram sua obra e repetem alguns preconceitos. Sua concepção de desenvolvimento é filosófica, existencial e libertadora. A concepção de liberdade enquanto libertação tem intensas convergências com a Filosofia da Libertação Latinoamericana. Em suma, toda sua obra, a partir do período isebiano, tem como fio condutor a questão da libertação dos povos oprimidos da Terra.


[1] Link de acesso: http://www.alvarovieirapinto.org/.

Breno Augusto da Costa, Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia, bolsista da CAPES. Pesquisa História da Filosofia Brasileira; Filosofia da Libertação; e Filosofia Política. E-mail: brenobac@gmail.com

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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