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Pintando de Povo a Academia

Por Taniel Silva de Araújo

Ruas de Salvador inspiram encontro nacional de desenho de locação |  Edgardigital - UFBA

1 INTRODUÇÃO

Vivemos no Brasil tempos sombrios: a ciência não é respeitada, a educação não é valorizada por aqueles que a deveriam valorizar. O governo está tomado pelo ocultismo. Mesmo aquele que dizia -se “intelectual” pulou fora do barco, abandonando uma ala ideológica que persegue um fantasma que os assombra sem que saibam ser real ou criação de suas próprias mentes.

Ainda que passemos por um momento ímpar de questionamentos à respeito de nossa própria existência e normalidade, outro questionamento é importante de se fazer neste momento: fomos sempre tão distantes das universidades à ponto de vermos os cortes que causam ainda mais sucateamento da educação sem nos manifestamos de forma mais enérgica enquanto sociedade?  

2 Encontrando rupturas, tecendo intersecções

Antes de tudo, como a pessoa conceitual que sou (no sentido de gostar, por vezes, de me ater muito aos conceitos), sinto a necessidade de darmos um pequeno e satisfatório significado à palavra academia. Esta que aqui tratamos não é o lugar onde as pessoas vão para malhar e cuidar de seus corpos, mas sim um lugar de cultuação, difusão e produção de ciência, artes, cultura.

A academia, apesar do que muitos pensam, é de fato parte da sociedade e é o que inicialmente precisamos trazer à tona antes de podermos iniciar qualquer discussão à respeito de torná-la mais popular, realmente do povo. Tal qual qualquer outro grupo da sociedade a academia tem a sua função. O que dizer dos trabalhos e pesquisas realizados por antropólogos, historiadores, sociólogos, e tantos outros profissionais, que de forma bela e aprofundada estudam fenômenos, difundem e descobrem feitos dos seres humanos enquanto sociedade?

O que seria de nós, humanidade, sem a beleza do raciocínio, olhar e contribuições da filosofia, mãe das ciências? O que saberíamos das produções dos nossos antepassados com riqueza de detalhes, comprovados por métodos rigorosos, se não pela História? Estas duas pequenas e simples perguntas são extremamente necessárias — tal qual é o tema desse debate —, para compreendermos a importância que tem a academia na nossa vida; mesmo que este seja apenas um debate introdutório e que não acaba de modo algum por aqui.

Ainda assim é possível dizer que a academia é apenas um lugar fechado sem contato algum com o mundo exterior? De certo que em alguns pontos sim! E alguns desses pontos serão de maneira rápida discorridos um pouco mais à frente. Mas paremos para refletir sobre as intersecções entre academia e população, já que academia e sociedade não podem ser de modo algum dicotomia plausível, visto que a academia é parte da sociedade.

Muitos trabalhos acadêmicos são fruto de protestos de determinado grupo da sociedade, ou mesmo um protesto pessoal do pesquisador. Tais trabalhos, por muitas vezes, dão visibilidade à assuntos, pessoas, lugares antes esquecidos pelo resto da sociedade de maneira premeditada por interesses de alguns, por tabus ou desigualdades.

Vamos olhar para o exemplo de Vilma Reis, que ainda em 2005 usava em sua tese de mestrado o seu conceito de “jovens-homens-negros”, para falar sobre as políticas de segurança pública nas periferias de Salvador (2005, p. 14); o exemplo do artigo Violência de gênero: o lugar da práxis na construção da subjetividade (p.153-179), de Heleieth Saffioti, no livro Pensamento feminista brasileiro: formação e contexto (2019), organizado Heloisa Buarque de Hollanda. Ali, no mundo acadêmico, temos uma bela noção  das trocas entre o movimento feminista e a academia, onde um serve de pesquisa e o outro nota  algo a ser contribuído: um relacionamento mútuo, onde o pesquisador depende de um movimento social para o seu trabalho; por fim, temos também o trabalho do antropólogo argentino Néstor Osvaldo Perlongher (1986), que em seu livro — que foi antes sua tese de mestrado —, O negócio do michê: prostituição viril em São Paulo, traz à tona uma realidade complemente ignorada pela sociedade, que nega políticas públicas e transborda de críticas e tabus: a prostituição de homens LGBTs.

Trabalhos como estes produzem uma reflexão do mundo acadêmico sobre pautas da militância de determinados grupos sociais e que devem ser apoiadas por todos. Escrever sobre tais pautas é, também, trazer o debate para a sociedade e somar-se ao coro das vozes que lutam pelos seus direitos, afinal, pesquisas geram conclusões.

É ainda mais necessário entender que para que pesquisas como estas aconteçam, o povo precisa se apossar da universidade, trazendo consigo sua vivência, cultura, ensinamentos, etc. As histórias contadas são contadas de alguma perspectiva, daí também a necessidade da população que compõe a maioria da sociedade estar na universidade, adentrar a academia e somar sua perspectiva por meio de estudos, artigos, ensaios, etc.

É sobre essa necessidade que fala Chimamanda Ngozi Adichie (2009), em seu livro Os perigos de uma história única, ao se dar conta de que em sua infância a história que lhe era contada não falava sobre pessoas como ela. Já maior, Chimamanda nos chama atenção para um outro fato muito importante: a história contada sobre nós por outros é quase sempre estereotipada e, portanto, rasa. Em outras palavras, como costuma dizer uma companheira que conheço, a história contada sobre nós por aqueles que não nos conhecem “Não nos representa”.

Era sobre isso que estava falando Beatriz Nascimento em 1977, na conferência Historiografia do Quilombo, ao ver como era abordada a história do negro na universidade assim que ingressou. O eterno estudo do negro escravo que chocou Beatriz Nascimento e que levava a crer que era “Como se nós só tivéssemos existido dentro dessa nação como mão de obra”, era nada mais do que a história de nosso povo sendo contado por outros que  não os nossos e que não se interessavam por outros traços de nossa personalidade e história, senão aquela.

O pesquisador ao fazer sua pesquisa, pode não se deixar levar muito por prenoções na sua escrita, a fim de estar aberto a novas ideias, fatos e caminhos. Ainda assim, o tema da pesquisa escolhido pelo pesquisador é influenciado por toda uma construção de vida pelo qual o cientista passou.

É ainda mais importante ressaltar uma vez mais que uma pesquisa traz resultados; uma vez que toda pesquisa tem suas conclusões, que são, na maioria das vezes, encaminhativas. Vamos olhar para as pesquisas etnográficas realizadas por antropólogos e outros profissionais que são realizadas com indígenas pelo Brasil. Em tempos de governos progressistas que valorizam a ciência, são pesquisas como essas que somam-se à luta dos povos indígenas por sua terra e melhores condições de vida para orientar o governo na criação de políticas públicas.

De toda forma, chegamos à um momento histórico para o povo menos favorecido no nosso país ao alcançarmos pela primeira vez maioria de pessoas negras entre os alunos de universidades públicas.

Esse fato nos traz ainda uma nova questão: se são os negros a maioria dos alunos nas universidades — número esse que se deu após um longo processo de lutas sociais que culminou na implementação da lei de cotas raciais e que já há algum tempo vem aumentando —, por qual motivo esses dados não se concretizam na academia entre professores, gestores e pensadores?

Profissionais negros representam uma parcela ínfima dos professores na educação superior do Brasil, se comparado à população preta brasileira e ao número de estudantes assim autodeclarados. Pouco mais de 4 instituições do Ensino Superior brasileiro tem maioria de professores negros, espalhadas entre as regiões Norte e Nordeste. Se formos olhar para os índices em busca de professores indígenas, este número despenca.

Pintar as universidades de povo é um passo muito importante e com um profundo significado. Não é tarefa fácil, afinal, nada é dado; tudo é construído com lutas, acúmulo e negociações. Pintar as universidades de povo significa romper com toda uma estrutura, que a duras penas rompemos ao adentrar o espaço da universidade, mas que ainda nos cria enormes dificuldades afim de que não nos tornemos docentes, mestrandos, doutorandos e famosos pensadores.

Romper com essa estrutura, significa trabalhar de forma coesa e árdua para criarmos um outro mecanismo, que prepare os nossos e as nossas ainda mais do que faz o Estado atualmente, e nos leve cada dia mais aos espaços de poder.

Pensando desta maneira, é imensamente necessário, termos na academia figuras que inspirem os seus pares, para que em algum momento possam desenvolver o trabalho pioneiro que já tem sido feito. São figuras como Carla Akotirene, Carolina Maria de Jesus, Djamilla Ribeiro, Milton Santos e tantas outras e outros que possibilitam pessoas negras e humildes a chegarem no patamar alcançado por tais figuras.

Qual não é o orgulho e inspiração que sentem as pessoas trans ao enxergar figuras como a de Tertuliana Mascarenhas Lustosa, que invade a academia para falar sobre a temática das pessoas trans de uma perspectiva não apenas de pesquisadora do tema, mas também de uma sobrevivente que sentiu e sente na pele as situações que descreve em seus textos? A problematização trazida por Tertuliana (2016), em seu Manifesto traveco-terrorista, é de suma importância para academia, sobretudo, porque é de suma importância social e humanística.

Todo essa luta ostensiva nos traz alguns bons frutos, como o bom exemplo da UFBA, que tem cotas para pessoas trans em todos os cursos, na graduação e na pós; graduações em gênero e sexualidade, estudos e pós-graduações em estudos sobre mulheres e povos africanos e suas contribuições.

Por outro lado, a iniciativa do movimento social organizado tem se constituído como uma outra poderosa frente à se somar àquele mecanismo supracitado para furar a bolha: são os chamados cursinhos populares. São iniciativas como a da Rede de Cursinhos Populares Elza Soares em São Paulo, do Cursinho Popular Tereza de Benguela no Espírito Santo e do Cursinho Pré IFF da União Maricaense dos Estudantes Secundaristas, no estado do Rio de Janeiro, que garantem que centenas de jovens das periferias possam estudar conteúdos focais, afim de que ingressem em universidades públicas e Institutos Federais.

Por fim, é admirável o estudo de conhecimentos populares pela academia. São filhos e filhas de santo que trazem em suas pesquisas as utilidades das folhas do candomblé, antropólogos e antropólogas que estudam o curandeirismo, como minha professora Fátima Tavares, que estudou e produziu um livro junto com outros colaboradores e colaboradoras sobre as práticas terapêuticas quilombolas, dentre tantos outros trabalhos . Todos esses exemplos da cultura e religião, ainda que de igual modo possamos encontrar pesquisas ainda mais contemporâneas sobre fenômenos como o carnaval, tribos urbanas, Harry Potter, meio ambiente e histórias da população de bairros inteiros — que fazem com que os seus cidadãos redescubram suas vidas e suas famílias, à medida que o bairro é redescoberto à luz da História, antropologia, sociologia e tanta outras áreas.

3 Conclusão sem um ponto final

O importante de tudo isso é lembrar que textos suntuosos com palavras difíceis são uma pequena parte daquilo que fazemos na academia, que são símbolo/resultado de extensivas pesquisas. São pesquisas que dialogam tanto de forma mais ampla com a sociedade, como também outras que respondem à  curiosidades mais específicas de cada área. Ainda assim temos problemas a serem resolvidos. Caso contrário, não haveriam determinadas problematizações à respeito do cunho não tão popular da academia. Contudo, considerando as experiências que temos até então, posso dizer que damos longos passos no caminho de tornar a academia um lugar ainda mais do povo. Este é um caminho ainda incerto, mas que é conquistado à medida que várias iniciativas populares, de pensadores e das próprias universidades surgem. Esperamos que esta luta volte a inspirar políticas públicas e pintar a universidade de ainda mais ideias, lutas e amores. Porque um povo que não tem proximidade com a ciência é, infelizmente, um povo acredita que indígenas ateiam fogo nas matas, na forma plana da Terra e, voltando aos primórdios — quando a filosofia ainda nascia —, na veracidade do mito.

REFERÊNCIAS

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Os perigos de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

HOLLANDA, Heloisa Buarque de (Org.). Pensamento feminista brasileiro: formação e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019. 400 p.

LUSTOSA, Tertuliana Mascarenhas. Manifesto traveco-terrorista. Revista Concinnitas, Rio de Janeiro, v. 28, n. 1, p. 389-409, set. 2016. Semestral. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/concinnitas/issue/view/1244. Acesso em: 22 set. 2020.

PERLONGHER, Néstor. O negócio do michê: a prostituição viril em São Paulo. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2008. 272 p.

REIS, Vilma. Atucaiados pelo Estado: As políticas de segurança pública implementadas nos bairros populares e suas representações, 1991-2001. 2005. 247 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador,2005.

SALLIT, Mathias. As universidades com maior representatividade de professores negros, segundo o MEC. 2019. Disponível em: <https://querobolsa.com.br/revista/professores-negros-universidades-com-maior-representatividade&gt;. Acesso em: 23 set. 2020.

Taniel Silva de Araújo, Graduando em direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

E-mail: taniel.araujo13@gmail.com

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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